Gado Domesticado Para Trabalho No Campo - Gado Domesticado Para Trabalhar No Campo
Gado Domesticado Para Trabalhar No Campo

Trabalhando com boi de tração hoje em dia

O gado domesticado para trabalho no campo ainda existe, mas não como muitos imaginam. A maioria dos que estão na ativa tem mais de sessenta anos de uso contínuo. O restante entrou em declínio rápido desde o fim dos anos 90, quando máquinas agrícolas ficaram acessíveis para pequenos produtores também. Ainda assim, em regiões como o Vale do São Francisco, partes do Mato Grosso do Sul e áreas isoladas do sertão nordestino, parcerias com bois de tiro continuam sendo a opção mais viável economicamente. Aqui vai o que realmente funciona na prática, sem romantismo.

Escolhendo gado domesticado para trabalho no campo

Não comece procurando um animal pronto para o serviço. Comece selecionando o bezerro certo. O que a maioria dos iniciantes erra é achar que qualquer boi forte serve. Força bruta sem temperamento adequado é o maior motivo de acidente. Um boi de tração precisa ser calmo sob pressão, responder a comandos vocais simples e ter costume de ficar amarrado por longos períodos. Filhotes de linhagens tradicionais, como gado crioulo ou mestiços zebuínos com sangue crioulo, costumam ter mais disposición para o trabalho do que Angus ou Nelore puro de corte convencional. Um detalhe que quase ninguém menciona: o formato dos chifres importa mais do que se imagina. Chifres bem afastados e curvados para fora permitem que o animal suporte o peso do arnés sem machucar o pescoço. Vi vários animais serem descartados justamente por terem chifres muito próximos ao crânio. O correto é observar isso já nos primeiros seis meses de vida.

O processo de adestramento real

O adestramento leva entre oito e dezoito meses, dependendo da consistência do tratamento. Comece com o animal com quatro a seis meses de idade, antes que alcance peso adulto. A primeira fase é simplesmente acostumar o boi a ter algo pesado arrastando atrás dele. Coloque uma corda grossa amarrada no pescoço e caminhe atrás dele puxando levemente. Nada de arnés ainda. Apenas isso, todos os dias, durante trinta dias. Depois vem a fase do arnés caseiro. Nos primeiros tempos eu fazia com correntes de bicicleta velhas, couro de garrote e tiras de pneu de caminhão. Funciona. Não é bonito, mas é funcional e custa menos de cinquenta reais em sucata. O arnés deve apoiar-se nos ombros e no peito, nunca no pescoço. Um arnés mal ajustado causa feridas que infectam e deixam o animal impossível de usar em duas semanas.

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Os comandos são basicamente três. Um pio agudo para parar. Um arrastão leve na corda guia para esquerda. Outro para direita. Nenhuma palavra complexa. O boi não aprende português, aprende associação. Se você variar os comandos todo dia, nunca vai conseguir nada. Eu usei o mesmo pio e os mesmos puxões por dezesseis meses seguidos e o animal respondia antes de eu terminar o gesto.

Problemas práticos que ninguém avisa

Uma situação específica que enfrentei: um boi chamado Tanque, mestiço de cinquenta meses, que parou completamente de andar quando puxava a enxada de subsolagem em terra seca e compactada. Não era preguiça. Era o fato de que o solo estava tão duro que o esforço excessivo gerava uma dor lombar aguda no animal a cada passada. Eu identifiquei o problema depois de observar que ele relaxava imediatamente ao transicionar para terreno mole. A solução foi simples: reduzir a profundidade da subsolagem de vinte para doze centímetros e passar duas passadas em vez de uma. O trabalho ficou mais lento, mas o animal voltou a trabalhar sem estresse. O outro problema recorrente é o casco. Em áreas de cerrado e caatinga, o piso pedregoso desgasta as unhas rapidamente. O correto é fazer aparos quinzenais mesmo em animais de trabalho. Um boi com casco ruim perde tração e desenvolve claudicação. A aparagem leva dez minutos e evita problemas que virariam semanas de imobilidade.

Limitações reais que precisam ser ditas

Boi de tração não substitui trator em nenhuma condição de grande escala. A velocidade média de trabalho com boi em aração convencional é de aproximadamente zero ponto dois hectares por hora, contra oito a doze hectares por hora de um trator de cinquenta cavalos. Para propriedades acima de quinze hectares, o custo operacional do boi já não compensa, considerando o tempo de treinamento e a manutenção do animal. O outro ponto: um boi de trabalho consome entre oito e(doze quilos de volumoso por dia mais dois quilos de concentrado durante períodos de esforço intenso. Em épocas de seca extrema, manter um animal assim é financeiramente insustentável para quem não tem pasto próprio. A alternativa nesses casos é alugar o serviço de quem já tem o animal treinado, o que costuma custar entre cento e cinquenta e duzentos reais por dia de trabalho, dependendo da região.

Se o seu objetivo é apenas capinar entre fileiras de cultura anual em pequenas áreas, uma enxada mecânica ou um cultivador movido a combustível resolve em vinte minutos o que um boi levaria duas horas. O boi faz sentido quando o terreno é inclinado, úmido ou fragmentado de forma que máquinas não entram. Fora isso, é história antiga mesmo.