O que você precisa saber sobre as frases Tales de Mileto
Esse tipo de consulta surge com frequência quando alguém está começando em filosofia ou precisa de material para um trabalho escolar. As frases Tales de mileto são trechos curtos atribuídos a Tales de Mileto, o primeiro filósofo ocidental, que viveu por volta de 624 a 546 a.C. na colônia grega de Mileto, na Jônia. Ele é conhecido por ser o primeiro a buscar uma explicação natural para o mundo, abandonando mitos. A pergunta fundamental dele foi simples: qual é o princípio de tudo? A resposta foi "água". Essa ideia radical, se é que podemos chamar assim, mudou a forma como os gregos pensavam sobre a realidade. O problema é que nada do que Tales escreveu sobreviveu. Tudo o que temos vem de terceiros, principalmente Aristóteles, que escreveu quase dois séculos depois. Isso significa que praticamente tudo que citamos como "frase de Tales" é uma citação de segunda mão, às vezes filtrada por autores que tinham interesses próprios. Quando eu montava material didático sobre isso no passado, descobri que muitas listas online repetem frases idênticas umas das outras sem nenhuma verificação. A coisa mais útil que fiz foi cruzar os trechos com os fragmentos coletados por Diels-Kranz, a referência acadêmica padrão para pré-socráticos. Sem isso, você está apenas reproduzindo citações de Wikipedia sem fonte primária.
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Aqui estão as principais frases e ideias atribuídas a Tales, organizadas pelo que se sabe que ele realmente disse versus o que provavelmente é posterior. Vou ser direto sobre o que é questionável. "A água é o princípio de todas as coisas." Esta é a central, a razão pela qual ele é lembrado. Aristóteles, na Metafísica, atribui essa ideia a Tales. O argumento parece ter sido que a água é essencial para a vida, que tudo se alimenta dela e que ela pode existir em três estados: sólida, líquida e gasosa. Para os padrões da época, isso era cientificamente sofisticado.
"Tudo está cheio de deuses." Essa frase aparece em diversas coleções de fragmentos pré-socráticos. Ela está ligada à ideia de que Tales acreditava que a alma era algo móvel e que a força motriz estava presente na matéria. Isso não tem nada a ver com religião organizada no sentido moderno. Era uma posição naturalista sobre a vida e a matéria. "Isso é bom: ser justo e dizer a verdade." Fragmento atribuído a Tales por vários autores antigos, incluindo Platão no Diálogo Menon. Platão conta que Tales respondeu a uma pergunta sobre o que é mais difícil dizendo "conhecer-se a si mesmo", sobre o mais fácil dizendo "cumprir-se a si mesmo", e sobre o que é mais penoso dizendo "ser feliz". Essas respostas foram consideradas sabedoria prática, não filosofia teórica.
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"Não afogue-se na lama." Essa é uma das frases mais citadas, frequentemente usada para ilustrar o pragmatismo de Tales. A história conta que ele fez os jônios rirem ao alugar todos os molesiros da região antes do inverno, provando que os filósofos poderiam ser ricos se quisessem, mas que seu interesse era outro. O ponto é que Tales sabia usar o conhecimento teórico para benefício prático, algo que muitos "filósofos" modernos esquecem. O que você vai encontrar em listas na internet geralmente inclui mais coisas do que realmente pertencem a Tales. Muitas são de Anaximandro ou Anaxímenes, seus sucessores em Mileto. Anaximandro disse que o princípio era o "ápeiron" (o ilimitado), e Anaxímenes disse que era o "ar". Esses três formam a Escola de Mileto, mas as frases são frequentemente misturadas. Eu já vi material de estudo que atribuía a frase sobre o ápeiron diretamente a Tales. Isso está errado, e corrigir isso exige consultar a edição crítica de Diels-Kranz ou textos como Testimonhas e Fragmentos dos Pré-Socráticos.
Outra armadilha comum é interpretar Tales como um cientista moderno. Ele não era. Ele estava inventando o método de pensar que substituiria a explicação mítica pela explicação racional. Isso aconteceu lentamente. No início, quase ninguém aceitou a ideia de que o mundo poderia ser explicado sem intervenção divina direta. Levaria gerações para que outras cidades, como Éfeso e Eleia, desenvolvessem críticas e alternativas. Se você está procurando os fragmentos originais para usar em pesquisa acadêmica, o caminho mais confiável é Die Fragmente der Vorsokratiker, de Hermann Diels e Walther Kranz, na edição de 1952 ou nas reimpressões posteriores. O volume 1 contém os fragmentos numerados com o código B1, B2, etc. Para Tales, os principais são B1 (água como arqué), B2 (tudo cheio de deuses), e as citações em Platão e Aristóteles. Existe também a coleção de Kirk, Raven e Schofield, The Presocratic Philosophers, que é mais acessível e inclui comentários em inglês, embora seja mais antiga.
Uma limitação séria que poucos mencionam: mesmo Diels-Kranz depende de citasções indiretas. Não temos nenhum texto escrito por Tales. Nenhum papiro, nenhuma inscrição. Apenas menções feitas por outros autores que falaram dele décadas ou séculos depois. Isso significa que há margem para interpretação legítima e também para erro. Alguns estudiosos argumentam que a atribuição de "água como princípio" a Tales pode ser uma simplificação de Aristóteles, que gostava de classificar os primeiros filósofos em categorias de "elemento material". Se isso for verdade, Tales pode ter pensado em algo mais complexo do que "é tudo água". Mas não temos como provar, e é melhor trabalhar com o que há do que inventar hipóteses sem fundamento. Na prática, usar frases Tales de mileto em trabalhos ou aulas funciona melhor quando se contextualiza. Não adianta decorar a frase "a água é o princípio de tudo" sem explicar que isso representou uma ruptura completa com a tradição homérica e hesiódica. Homero e Hesíodo diziam que o mundo vinha de Caos, de titãs, de divindadespersonais. Tales disse: não, tem um princípio natural que pode ser observado e discutido. Esse é o verdadeiro valor da coisa, não a frase em si.
Se você quer material complementar, a Stanford Encyclopedia of Philosophy tem verbetes sobre Tales e sobre a Escola de Mileto que revisam as questões textuais com bastante cuidado. A Internet Encyclopedia of Philosophy também tem conteúdo útil, mas é menos rigoroso academicamente. Para uso acadêmico formal, a SEP é mais recomendada. Para estudo inicial, ambos servem.