O que realmente acontece nas fases do parto normal
A maioria dos materiais que você encontra na internet descreve as fases do parto normal de forma muito clínica e teórica. Na prática, o corpo não lê manuais. Já vi primíparas terem uma dilatação que parecia estagnada por horas e de repente avançarem rapidamente quando mudaram de posição, enquanto multíparas que pareciam "bem evoluídas" podiam ter fases de latência extremamente longas e exaustivas. O conhecimento teórico é útil, mas o que ocorre no leito raramente segue o roteiro padrão.
Entendendo as fases do parto normal na prática
O parto normal se divide tradicionalmente em três fases principais, mas essa divisão é mais útil para comunicação entre profissionais do que como um guia rígido do que a gestante vai sentir. A primeira fase é o trabalho de parto propriamente dito, que começa com contrações regulares e termina com a dilatação completa do colo uterino, em torno de 10 cm. A segunda fase é a expulsiva, quando a mulher empurra e o bebê nasce. A terceira fase é a de descola da placenta e sua expulsão. O que poucos explicam direito é que a primeira fase se subdivide em duas zonas bem distintas: a fase latente e a fase ativa. Na fase latente, as contrações começam irregulares, frakas, e a dilatação avança devagar, muitas vezes de 0 a 3 ou 4 cm. Aqui está o maior desafio prático: nessa fase, o cansaço se instala antes mesmo de o parto propriamente dito começar. Já acompanhei partos em que a gestante passou mais de 12 horas na latência, sem necessidade real de intervenções, apenas aguardando. O erro mais comum nesse período é a indução ou a aceleração prematura, que podem transformar uma latência normal e tranquila em um parto artificialmente mais sofrido.
Quando entra na fase ativa, a dilatação acelera para cerca de 1 cm por hora em primíparas e mais rápido em multíparas. As contrações ficam mais fortes, mais próximas, e aqui sim o trabalho de parto ganha seu ritmo real. A dor aumenta significativamente, e é nessa fase que os métodos analgésicos, como a.anestesia peridural, costumam ser mais solicitados e fazem mais sentido clinicamente. A fase expulsiva varia muito. Em primíparas, pode durar de 30 minutos a 2 horas ou mais, especialmente se houver epidural, que reduz a sensação de impulso expulsivo. Em multíparas, geralmente é mais rápida, frequentemente abaixo de uma hora. O importante aqui é que empurrar não é sinonimo de progressão. Técnica de fôlego, posições, e o timing certo importam mais do que força bruta.
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A terceira fase, a da placenta, geralmente dura entre 5 e 30 minutos. É a mais curta e menos comentada, mas também é onde ocorrem problemas como retenção placentária ou hemorragia pós-parto, especialmente se a placenta não se soltar adequadamente. O manejo ativo dessa fase, com ocitocita intramuscular ou endovenosa logo após o nascimento do bebê, reduz significativamente o risco de sangramento excessivo. Um ponto que quase ninguém aborda com honestidade: a curva de Friedman, que define os padrões de dilatação ao longo do tempo, foi baseada em dados dos anos 1950 e tende a subestimar o tempo normal da latência. Estudos mais recentes mostram que partos normais podem levar muito mais tempo do que o handbook tradicional indica, especialmente na primeira fase. Isso significa que pacientes que seriam classificadas como "distócia de progressão" segundo critérios antigos podem simplesmente estar tendo um parto normal que exige mais paciência.
Outra nuance importante diz respeito à posição da gestante. A literatura atual recomenda posições semirrígidas, de quadrupedia, agachada ou lateral, pois a posição litotômica clássica (deitada de costas com pernas elevadas) não oferece vantagem algum e pode até prejudicar a progressão do feto ao comprimir a veia cava. Na minha experiência, gestantes que permanecem em pé ou em quatro apoios durante a fase ativa tendem a ter progressões mais eficientes e menos dor lombar, especialmente em casos de posição occipital posterior do feto. O desfecho de cada fase também depende de fatores que vão além do tamanho da pelve ou do peso fetal. A flexibilidade do pescoço uterino, o volume do líquido amniótico, a força das contrações, e até o estado emocional da parturiente influenciam diretamente a velocidade e a suavidade do processo. O medo e a tensão liberam catecolaminas que podem retardar as contrações, criando um ciclo vicioso. Por isso, a presença de acompanhante qualificado e o ambiente de parto respeitoso não são apenas questões de conforto, mas fatores fisiológicos reais.
Se você está buscando informações para se preparar, o recomendado é entender essas fases como orientações gerais, não como promessas. Cada parto é único, e a variabilidade é a regra, não a exceção. O acompanhamento pré-natal adequado, a escolha de uma equipe que respeite os tempos biológicos e a informação correta sobre o que esperar são as ferramentas mais úteis disponíveis.