Fase Cronica Da Doença De Chagas - Doença de Chagas: fase crônica eleva risco de problemas cardíacos ...
Doença de Chagas: fase crônica eleva risco de problemas cardíacos ...

O que acontece quando o parasita se instala e fica

A fase crônica da doença de chagas é aquele período que pode durar décadas depois da infecção inicial. O Trypanosoma cruzi continua lá, se reproduzindo lentamente, destruindo tecido aos poucos enquanto o sistema imune tenta, sem muito sucesso, manter o controle. A maioria das pessoas não sente nada nos primeiros anos. Isso é exatamente o que torna a doença tão traiçoeira.

Fase cronica da doença de chagas: como se apresenta na prática

Quando os sintomas aparecem, geralmente após 10 ou 20 anos, eles se concentram em dois órgãos principais: o coração e o trato digestivo. A cardiopatia chagásica crônica é a manifestação mais comum e a mais letal. Pode causar arritmias, blocos de condução, trombos intracavitários e insuficiência cardíaca congestiva. O coração vai dilatando, o músculo fica fibrosado. Em alguns casos, o paciente chega ao pronto-socorro com fibrilação atrial e o diagnóstico só surge quando o eletrocardiograma mostra a imagem clássica de bloqueio da ramificação direita com elevação do segmento ST em V1 e V2. A forma digestiva causa megaesôfago, megacólon, megaduodeno. O paciente tem dificuldade para engolir, perde peso, tem refeeding síndrome se a nutrição for iniciada de forma muito agressiva. No intestino, o quadro assemelha-se à doença de Hirschsprung em adultos: constipação severa, flatulência, dor abdominal. O sigmoidiano é o segmento mais afetado.

Na prática clínica, eu já vi pacientes que foram encaminhados como "cardiopatia dilatada de origem desconhecida" e só no exame de imunoenzimática duplo foi possível confirmar Chagas. Um colega meu acompanha um paciente de 68 anos, assintomático cardiológicamente, que fez exame de triagem em doação de sangue e descobriu a doença. A carga parasitária estava baixa, mas o ECG já mostrava alterações precoces de condução. Iniciar o tratamento com benznidazol aos 68 anos não reverte a fibrose estabelecida, mas pode retardar a progressão. O debate sobre quando tratar na fase crônica ainda é aberto na literatura.

Diagnóstico: por que é complicado

O diagnóstico da fase crônica depende de provas sorológicas. Hemocultura e microhematocrito têm sensibilidade insuficiente porque a parasitemia é baixíssima. PCR pode ser utilizado como teste complementar, mas não substitui a sorologia. O padrão-ouro são dois testes diferentes: ELISA duplo, depois IFA ou RIA. Se ambos forem reagentes, o diagnóstico é confirmado. Se houver discordância, faz-se um terceiro teste, geralmente triplicando o tempo até chegar a uma conclusão. Um problema real que poucos mencionam: a reação cruzada com outras doenças. Pacientes com leishmaniose visceral, Hansen e até algumas hepatites podem dar reagência falsa em testes de triagem mais sensíveis. Por isso a importância de confirmar com um segundo método diferente. Também é frequente o chamado "fenômeno prozona", onde amostras com título muito alto de anticorpos podem dar resultado negativo se não forem diluídas adequadamente. Se o primeiro ELISA der negativo em um paciente com alta probabilidade clínica, repita com diluição 1:100 antes de descartar.

Tratamento: as limitações reais

Benznidazol e nifurtimox são os únicos drogas disponíveis. A eficácia na fase crônica é controversa. Estudos como o Chagas Active Treatment (PAT) e o BENEFIT mostraram que o benznidazol reduz a carga parasitária e tem algum efeito cardsico protetor, mas não elimina a fibrose já estabelecida. O tratamento é mais eficaz quando iniciado na fase crônica inicial, antes da instalação de lesões estruturais graves. O esquema padrão de benznidazol é 5 mg/kg/dia durante 60 dias, dividido em duas tomadas. Os efeitos adversos são frequentes: dermatite de contato, neuropatia periférica, alteração de função hepática. A interrupção por reações adversas ocorre em cerca de 30 a 50% dos casos em alguns centros. Quando isso acontece, reduzo a dose pela metade temporariamente e aumento gradualmente. Funciona na maioria dos pacientes, mas a tolerância individual varia muito.

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Aqui vai uma dica que não está em nenhuma cartilha: monitorar a função hepática a cada 15 dias e fazer hemograma completo no início e ao final do tratamento. Se a enzima AST subir para três vezes o limite superior, suspendo imediatamente. A hepatotoxicidade reversível é comum, mas a hepatite grave é rara. Já vi um caso de pancreatite aguda associada ao uso de benznadazol em paciente acima de 60 anos, felizmente sem sequelas, mas o tratamento foi interrompido e não reiniciado. No manejo da cardiopatia chagásica, o tratamento é o mesmo da insuficiência cardíaca padrão: IECA ou BRA, betabloqueadores, antagonistas da aldosterona, diuréticos. A diferença crucial é a preferência por amiodarona para arritmias ventriculares, já que a flecainida e outros antiarrítmicos classe IC estão contraindicados na cardiopatia orgânica. Para bloqueios auriculoventriculares completos, o marcapasso é indicção absoluta. Defibrilador implantável (CDI) deve ser considerado em pacientes com fração de ejeção abaixo de 35% e risco de morte súbita.

No trato digestivo, o manejo é sintomático. Para megaesôfago, evitar alimentos muito quentes ou muito frios, mastigar bem, refeições pequenas e frequentes. Em casos selecionados de agranessia, a dilatação com balão pode ser tentada, mas a respuesta costuma ser temporária. A Esofagectomia é o último recurso, com morbidade elevada. Para megacólon, uso de laxantes osmóticos, enemas de manutenção e, em casos extremos, colectomia. O risco de perforação aumenta significativamente se houver colite pseudomembranosa associada durante a cirurgia.

Pontos que todo mundo erra

O primeiro erro comum é pensar que a doença crônica é sempre assintomática. Ela pode permanecer silencial por anos, mas o dano já está acontecendo em nível celular. A segunda é subestimar a importância do rastreamento em áreas endêmicas. Pacientes procedentes do norte de Minas Gerais, Mato Grosso, Rondônia e partes do Nordeste têm prevalência que varia de 2 a 10% dependendo da região. Todo paciente que vai ser submetido a transplante de órgão sólido, quimioterapia ou imunossupressão precisa ser triado para Chagas. Reactivação da doença sob terapia imunossupressora é uma realidade, não uma teoria. Outro equívoco frequente: acreditar que tratamento na fase crônica é inútil. Não é. Reduz a progressão, diminui a chance de novas manifestações, e em alguns casos há melhora funcional. Mas o paciente precisa entender desde o início que os danos estruturais já instalados vão permanecer. A mensagem honesta é: tratamos para prevenir o pior, não para retornar ao estado anterior.

A questão da gravidez também merece atenção. Mulheres cronicamente infectadas podem transmitir verticalmente o parasita. O risco varia de 1 a 10% por gravidez. O tratamento prégante com benznidazol está contraindicado, mas os novos dados sobre nifurtimox estão abrindo possibilidades. Cada caso deve ser discutido em equipe multidisciplinar, com aconselhamento genético adequado.

Um caso que ficou na minha memória

Em 2019, atendi um paciente de 54 anos, caboclo da zona rural de Goiás, que chegou ao hospital com palpitações e síncope. O ECG mostrou taquicardia ventricular sustentada. Foi colocado CDI. Na investigação, a sorologia para Chagas reagente em dois testes. O ecocardiograma revelou ventrículo esquerdo dilatado comFE de 30%. Iniciou benznidazol, mas teve dermatite severa na segunda semana. Suspendi, tratei a pele com corticoide tópico e reintroduzi a dose em metade, titulando muito lentamente. Após oito semanas, conseguiu completar 60 dias. Reavalição após um ano mostrou estabilidade da FE e redução dos eventos arrítmicos. O acompanhamento anual com Holter 24h e ecocardiograma é mandatório nesses casos.