Existe A Palavra Houveram - Houve ou houveram: qual é o correto? - Brasil Escola
Houve ou houveram: qual é o correto? - Brasil Escola

O verbo haver e a confusão que ninguém resolva de vez

A pergunta existe a palavra houveram vem aparecendo com frequência em grupos de revisão textual, concursos públicos e até em redações de quem deveria saber melhor. A resposta curta é: depende do sentido do verbo. A resposta longa, que realmente resolve o problema, é mais chata mas funciona.

Existe a palavra houveram na língua portuguesa?

Sim, a forma existe. O problema é que a maioria das pessoas que a usa está errado sobre por quê. Vou direto ao ponto porque já vi muita gente gastar horas num texto tentando justificar "houveram" como se fosse uma flexão legítima do sentido impersonal. Quando o verbo haver significa "existir" ou "ocorrer", ele é impessoal. Não tem sujeito. Não flexiona. Ficamos com o singular sempre: houve, havia, haverá, houvesse, houvessem. Esse é o erro mais frequente em textos jurídicos e administrativos. "Houveram problemas" está errado porque o sujeito não é "problemas". O verbo haver, nesse uso, não tem sujeito de nenhum tipo.

Por outro lado, quando haver funciona como verbo auxiliar num período composto, a flexão normal vale. "Eles haviam chegado tarde", "Nós tínhamos havido resultados ruins". Nesses casos, haveram/haviam concorda com o sujeito da oração principal. O auxiliar não carrega o peso semântico de existência — esse peso fica com o verbo principal no infinitivo. Dei uma olhada num contrato de prestação de serviços que estava sendo revisado. A redação original dizia "havendo ocorrido houveram atrasos no cronograma". Duas coisas erradas no mesmo fragmento. Corrigi para "havendo ocorrido atrasos no cronograma" — o "houveram" simplesmente desapareceu porque o verbo principal já era "ocorrido", e "haver" no sentido de existência estava sobrando. Aquele trecho ia de 14 palavras para 7, sem perder informação nenhuma.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

O detalhe que poucos levam em conta é que haverno sentido de existência também aparece na voz passiva analítica, e aí a tentação de pluralizar é ainda maior. "Houveram sido encontradas documentos" soa natural para muito ouvido treinado em português falado informal, mas está incorreto. O certo é "houve sido encontrado documentos" — novamente, sem sujeito, sem flexão. O que confunde as pessoas é que o particípio "encontrados" está no plural, e o cérebro quer fazer concordar algo com ele. Não há nada para concordar. Outra situação que gera dúvida real é o uso de "haver" seguido de expressão de tempo. "Houve dois anos desde a última reunião." Muita gente escreve "houveram dois anos". A lógica do erro parece sólida: dois anos é plural, então o verbo deveria ir para o plural. Mas essa lógica não se sustenta na gramática normativa porque o verbo permanecer impessoal independe do complemento nominal. O tempo é complemento, não sujeito.

Na prática editorial, quando encontro "houveram" num texto, faço uma verificação rápida: posso substituir por "existir" no mesmo tempo verbal? Se a substituição funciona e o resultado fica estranho no plural, o verbo está no sentido impessoal e precisa ficar no singular. Se a substituição não funciona — ou seja, se o sentido é de auxiliar de outro verbo — aí a flexão pode ser legítima. O limite dessa abordagem é que ela não captura todos os casos poéticos ou arcaizantes. Em literatura mais antiga, ocasionalmente se encontra "haver" usado com flexão no sentido de existência, especialmente em versos onde a métrica exige. Fora desse contexto específico, a regra se mantém firme. Para escrita técnica, jurídica ou acadêmica, não há margem para experimentalismo.

Se você precisa consultar a forma exata de um verbo numa situação específica, o Dicionário Houaiss e o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da ABL listam "houveram" como forma do pretérito perfeito do indicativo, mas a entrada vem acompanhada da restrição de uso como auxiliar. Isso significa que a forma existe no verbete, mas o uso impessoal não está coberto. A diferença entre "está no dicionário" e "pode ser usada assim" é exatamente onde a maioria dos erros acontece.