O que acontece quando o sistema excretor falha
O sistema excretor é responsável por filtrar o sangue e remover resíduos do corpo. Quando algo dá errado, os problemas podem variar desde cálculos renais incômodos até insuficiência renal crônica, que exige diálise ou transplante. Vou explicar as principais doenças do sistema excretor e como lidar com elas na prática.
Principais doencas do sistema excretor
A doença renal crônica (DRC) é provavelmente a mais comum. Ela se desenvolve gradualmente ao longo de anos, muitas vezes sem sintomas evidentes. O paciente pode não perceber nada até que 70% da função renal já esteja comprometida. Na minha experiência clínica, muitos casos só são diagnosticados tardiamente porque as pessoas ignoram exames de rotina. Outra condição frequente são os cálculos renais, conhecidos popularmente como pedras nos rins. Os sintomas incluem dor lombar intensa, náuseas e presença de sangue na urina. Um detalhe que muita gente não sabe é que o tratamento depende do tipo de cálculo. Cálculos de oxalato de cálcio precisam de ajustes nutricionais diferentes dos cálculos de ácido úrico, que respondem melhor à alcalinização da urina.
A infecção do trato urinário também é recorrente, especialmente em mulheres. Quando não tratada adequadamente, pode subir para os rins e causar uma pielonefrite, que é muito mais grave. O uso inadequado de antibióticos tem aumentado as resistências bacterianas, tornando alguns tratamentos menos eficazes do que eram há dez anos. Glomerulonefrite é outra doença importante. É uma inflamação dos glomérulos, as unidades de filtração dos rins. Pode ser aguda ou crônica. Um paciente com glomerulonefrite frequentemente apresenta edema, hipertensão e hematúria microscópica ou macroscópica. O diagnóstico requer biópsia renal para determinar o tipo exato e o tratamento adequado.
Em relação ao trato urinário inferior, a hiperplasia prostática benigna é extremamente comum em homens acima de cinquenta anos. Causa dificuldade para urinar, jato fraco e necessidade frequente de ir ao banheiro, principalmente à noite. A distinção entre HPO benigna e câncer de próstata exige avaliação urológica, com dosagem de PSA e toque retal quando necessário. Um caso que ficou na minha memória envolve uma paciente com insuficiência renal estágio 4 que foi internada por desidratação grave causada por gripe. O problema foi que ela estava tomando remédios para dor à base de AINEs sem supervisão. AINEs como ibuprofeno e diclofenaco reduzem o fluxo sanguíneo renal e podem precipitar uma lesão renal aguda sobre uma doença crônica. A solução foi suspensão imediata dos AINEs, hidratação venosa controlada e acompanhamento rigoroso da creatinina. Mesmo assim, ela não recuperou toda a função renal anterior.
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Como fazer o diagnóstico correto
O primeiro passo é sempre a dosagem de creatinina sérica e o cálculo da taxa de filtração glomerular estimada (TFGe). A TFGe é mais informativa do que a creatinina isoladamente porque leva em conta idade, sexo e raça. Depois, um exame de urina completo, incluindo microscopicamente, deve ser solicitado. O ultrassom renal e das vias urinárias é simples, não invasivo e fornece muitas informações: tamanho dos rins, presença de hidronefrose, cálculos visíveis e anomalias anatômicas. Rinhas pequenos e enrugados indicam doença crônica estabelecida. Rins grandes podem sugerir infiltração por diabetes ou amiloidose.
Em casos selecionados, exames de imagem mais sofisticados como tomografia computadorizada ou ressonância magnética são necessários. A biópsia renal é o padrão-ouro para diagnóstico de doenças glomerulares, mas é um procedimento que exige cuidados específicos devido ao risco de sangramento.
Opções de tratamento existentes
O tratamento varia conforme a doença. Para doença renal crônica, o controle rigoroso da pressão arterial e da glicemia em diabéticos é fundamental. Inibidores da ECA ou bloqueadores dos receptores da angiotensina II protegem os rins além de controlar a pressão. A nefrologia moderna também utiliza os antagonistas do receptor de mineralocorticoides e, mais recentemente, os inibidores SGLT2, que demonstraram benefício renal independente do controle glicêmico. Para cálculos renais, o manejo depende do tamanho e localização. Cálculos menores que cinco milímetros frequentemente passam espontaneamente com hidratação e analgesia. Cálculos maiores podem exigir litotripsia extracorpórea ou procedure urológico. Prevenção inclui aumentar a ingestão hídrica para produzir pelo menos dois litros de urina por dia e ajustar a dieta conforme o tipo de cálculo.
Na infecção do trato urinário, o tratamento antibiótico deve ser guiado por urocultura e antibiograma sempre que possível. Automedicação com antibióticos incompletos é um dos principais motivos de recorrência e resistência. Para pacientes em estágio terminal de doença renal, as opções são diálise hemodinâmica, diálise peritoneal ou transplante renal. O transplante oferece melhor qualidade de vida e sobrevida quando disponível e indicado, mas a fila de espera e a escassez de órgãos permanecem como barreiras significativas no sistema público de saúde brasileiro.
Um ponto importante que poucos mencionam é que muitos medicamentos precisam de ajuste de dose na insuficiência renal. Antibióticos, metformina, anticoagulantes e diversos outros remédios se acumulam quando a função renal está reduzida. Um paciente com TFGe abaixo de trinta precisa revisão de toda a sua farmacoterapia. esquecimento dessa regra já causei reações adversas graves em consultório.