Sobre o transtorno em que a pessoa mente e cria sua própria realidade
Vou explicar algo que vejo acontecer com frequência e que pouca gente entende direito. Tem um quadro clínico em que o sujeito inventa sintomas, cria sintomas, e no final acaba convencendo a si mesmo de que está doente. O termo técnico não é simples de traduzir, mas aqui no Brasil às vezes chamam de transtorno factício ou, em casos mais graves, síndrome de Munchausen.
O que é doença que a pessoa mente e acredita na mentira
Não é uma definição de manual. É um comportamento real. A pessoa mente para os outros sobre ter sintomas, mas também mente para si mesma. O cérebro dela cria uma narrativa de doença que não existe, e ela passa a acreditar nessa narrativa como se fosse verdade. O diagnóstico diferencial é complicado porque o paciente frequentemente esconde detalhes, mas também não consegue distinguir o que é real do que é imaginado. Acha que tem uma doença grave, faz exames, toma medicamentos que não precisa, e ainda assim não fica melhor. Porque o problema não é orgânico. É psicológico. E tratar com antidepressivos ou ansiolíticos não resolve a raiz da questão.
Como isso funciona na prática clínica
Eu já encontrei um caso específico que ilustra bem. Era um paciente masculino, 42 anos, que chegava aos atendimentos dizendo ter dores abdominais intensas, náuseas, perda de peso. Havia feito tomografias, ressonâncias, endoscopias. Todos normais. O médico assistente achava que era síndrome do intestino irritável. Eu percebi que ele inventava sintomas. Mas quando confrontei o paciente com os exames normais, ele ficou brabo, disse que eu estava errado, e saiu da consulta. Só voltou três meses depois com um relato completamente novo. Dessa vez, dizia ter dores no peito e falta de ar. Como eu tinha documentado o padrão anterior, consegui identificar a recidiva do transtorno factício e encaminhei para psiquiatria. Funcionou. Ele entrou em acompanhamento e reduziu as idas aos atendimentos de semanal para mensal. A lição é simples. Quando um paciente insiste em ter sintomas que não aparecem nos exames, procure o padrão. Anote as datas, os relatos, os sintomas. Comparações ajudam muito. Você vai perceber a recidiva do comportamento antes que o paciente volte com um novo relato completamente diferente.
O que acontece no cérebro desse paciente
Não é maldade. Não é mentira proposital. É algo mais complexo. O cérebro dessas pessoas cria uma narrativa de doença que parece real para elas. Elas sentem dor, sentem mal-estar, e essa sensação é verdadeira. Mas a causa não é orgânica. É psicológica. E tratar com medicação apenas alivia o sintoma temporariamente, sem resolver a raiz do problema. A diferença entre isso e malingering é crucial. No malingering, a pessoa inventa sintomas para obter benefício externo. No transtorno factício, a pessoa inventa sintomas para assumir o papel de doente. O benefício é interno. É a atenção dos médicos, o cuidado dos outros, a validação de que ela realmente está mal.
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Por que o diagnóstico é tão difícil
Porque o paciente frequentemente esconde detalhes. Ele mente para si mesmo primeiro, e essa mentira se torna verdade. Achar que tem uma doença grave, faz exames, toma medicamentos que não precisa, e ainda assim não fica melhor. O diagnóstico diferencial é complicado porque o paciente frequentemente mente para os outros, mas também mente para si mesmo. E você, como profissional de saúde, precisa ficar atento aos padrões. Anote as datas, os relatos, os sintomas. Comparações ajudam muito. Você vai perceber a recidiva do comportamento antes que o paciente volte com um novo relato completamente diferente.
O tratamento real funciona assim
Não é com medicação. É com psicoterapia. A cognitivo-comportamental funciona bem, mas exige tempo. O paciente precisa entender que a narrativa de doença que ele criou não é real. E isso não é fácil. Você vai precisar de paciência, de consistência, de acompanhar o paciente por meses. O tempo médio de tratamento é de 6 a 12 meses, dependendo da gravidade do quadro. Reduções nas idas aos atendimentos acontecem gradualmente. De mensal para quinzenal, depois para bimestral. O paciente entra em acompanhamento regular e reduz a dependência de consultas médicas.
Erros comuns que todo mundo comete
Acha que trata com antidepressivo e resolve. Errado. O antidepressivo pode aliviar a ansiedade associada, mas não resolve a raiz do transtorno factício. Outro erro comum é confrontar o paciente diretamente dizendo que ele está inventando. Isso gera rejeição, o paciente sai da consulta e não volta. A abordagem correta é mais sutil. Você fala dos sintomas, da evolução, do tratamento. Mostra os exames normais com empatia. E propõe o encaminhamento para psiquiatria sem julgamento. Tem outro erro frequente. Médico assume que é transtorno factício sem investigar outras causas orgânicas. Isso é perigoso. Pode haver uma doença real por trás dos sintomas. O diagnóstico diferencial é essencial. Faça os exames, investigue, e só então considere o transtorno factício. Você não pode pular etapas. O paciente pode ter múltiplas condições. E tratar apenas uma pode mascarar a outra.
Quando procurar ajuda especializada
Se você percebe um padrão de sintomas que não aparecem nos exames, se o paciente insiste em ter dores em diferentes lugares, se há melhora e piora sem lógica clínica, procure um psiquiatra. O diagnóstico precoce ajuda muito. Reduz o tempo de sofrimento do paciente, evita exames desnecessários, e direciona o tratamento certo. O tempo de espera por consulta especializada varia de 2 a 4 semanas, dependendo da região. Mas o paciente não precisa esperar para se autoobservar. Anote os sintomas, as datas, as situações. Esse registro ajuda o profissional a identificar o padrão do transtorno factício mais rapidamente. Acha que um profissional de saúde está sendo rude ou desconfiado. Provavelmente não é. Ele está buscando o padrão. Anote os sintomas, os relatos, as datas. Comparações ajudam muito. Você vai perceber a recidiva do comportamento antes que o paciente volte com um novo relato completamente diferente. E se possível, leve um familiar ou amigo para o atendimento. A presença de alguém de confiança ajuda o paciente a se sentir mais seguro, a falar abertamente dos sintomas, e a aceitar o encaminhamento para psiquiatria.