Um guia prático para não se perder mais nas indicações de lugar em português
Muita gente trava na hora de escolher entre "desta" e "desta". O problema não é a regra em si, mas a forma como ela é ensinada. Em vez de decorar tabelas, o jeito mais seguro é entender a lógica por trás das formas contrainda e dos pronomes demonstrativos.
desta ou dessa quando usar: a lógica por trás da escolha
A primeira coisa que preciso deixar clara é que "desta" não existe isoladamente como forma plena do demonstrativo. O que acontece é contração. "Desta" surge da união da preposição "de" com o demonstrativo "esta". Da mesma forma, "dessa" vem de "de" + "essa". A confusão nasce porque o falante pensa em "desta" como um termo completo, quando na verdade é uma fusão. Para saber qual usar, a pergunta que deve ser feita é: qual é o pronome demonstrativo que se encaixa no contexto, e depois adiciona-se a preposição "de" se necessário. Se a coisa está perto de quem fala, usa-se "este/esta/estes/estas". Se está perto de quem ouve, usa-se "esse/essa/esses/essas". Se está longe de ambos, usa-se "aquele/aquela/aqueles/aquelas".
Quando há a preposição "de" antes, a contração ocorre: "de" + "esta" vira "desta". "De" + "essa" vira "dessa". Exemplo prático: "Falo desta questão" significa "falo desta questão aqui perto de mim". "Falo dessa questão" significa "falo dessa questão que está perto de você". Já vi muitos estudantes de português como língua estranha confundirem isso porque o sistema de demonstrativos no português não tem equivalente exato em muitas línguas. Em inglês, por exemplo, "this" e "that" já carregam a noção de distância, mas não há a mesma riqueza de combinações com preposições que o português oferece.
Como aplicar na prática
O mecanismo básico funciona assim. Identifique a preposição. Se a frase pede "de", combine-a com o demonstrativo adequado. O demonstrativo escolhido depende da relação espacial ou discursiva entre os participantes da conversa. Se você está segurando um objeto e se referindo a ele, usa-se a forma relativa ao falante: "deste livro", "desta caneta". Se você se refere a algo que está mais perto do interlocutor, usa-se "desse livro", "dessa caneta". A diferença pode parecer sutil, mas em contextos formais ela é cobrada com frequência.
Outro ponto importante é a concordância em gênero e número. "Desta" é feminino singular. Se precisar do masculino, será "deste". No plural feminino, "destas". Para o masculino plural, "destes". O mesmo padrão se aplica a "dessa": "desse", "dessas", "desses". Um detalhe que passa despercebido é que a contração com "de" só ocorre com os demonstrativos "este/essa/aquele" e suas flexões. Não se contrai com "isto", "isso" ou "aquilo". Por exemplo, você diz "falo disso", e não "desto" ou algo do tipo. "Disso" é a forma correta quando se usa o pronome neutro.
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Um caso específico que me pegou
Eu trabalhei com revisão de textos jurídicos há alguns anos. Havia um contrato em que o redator havia escrito "desta data" quando o sentido real era "dessa data". A diferença estava em qual momento temporal estava sendo enfatizado. "Destad data" indicava a data corrente, próxima ao falante no tempo. "Dessa data" referia-se a uma data já mencionada anteriormente no documento, distante no discurso. O erro causava ambiguidade sobre qual termo de vigência estava sendo referenciado. Eu sugeri corrigir para "dessa data" porque o contexto mostrava que se tratava de uma data já citada em cláusula anterior, não da data atual do documento. A correção eliminou a ambiguidade sem alterar o restante da estrutura.
Erros comuns e como evitá-los
O erro mais frequente é trocar "desta" por "dessa" quando a referência é ao falante, ou vice-versa. Isso acontece porque a intuição do falante não internalizou completamente a lógica de proximância. Uma forma de treinar é falar as frases em voz alta e perguntar: isso está perto de mim ou perto de quem eu estou falando? Outro erro comum é usar "desta" quando o pronome neutro seria o adequado. Lembre-se: se o termo é "isto" ou "isso", a contração com "de" produz "disso", nunca "desto" ou formas similares. "Preciso de algo disso" está correto. "Preciso de algo disto" soa inadequado na norma padrão.
Também é errado tratar "desta" e "dessa" como sinônimos. Elas carregam valores diferentes de referência. Trocá-las indiscriminadamente pode alterar o sentido da frase e causar mal-entendidos, especialmente em textos formais, contratos, artigos científicos ou comunicações oficiais.
Quando a regra não se aplica
Existem casos em que a escolha entre "desta" e "dessa" não segue estritamente a noção de proximidade física. Em contextos discursivos, o demonstrativo pode apontar para algo já introduzido no texto, independentemente de onde ele esteja fisicamente. Nesse caso, "dessa" pode ser usado para retomar um conceito previamente mencionado, mesmo que ele não esteja "perto" do interlocutor. Isso é especialmente relevante em textos argumentativos, onde o autor retoma pontos anteriores usando "disso" ou "dessa" como marcas de coesão. Nesse uso, a lógica de proximância espacial perde força em favor da lógica textual.
Resumo rápido
Para decidir entre "desta" e "dessa", identifique a preposição "de" e o demonstrativo adequado ao contexto. "Desta" vem de "de" + "esta", referindo-se a algo próximo do falante. "Dessa" vem de "de" + "essa", referindo-se a algo próximo do interlocutor. Em casos de pronome neutro, use "disso". Pratique com exemplos concretos e revise textos formais cuidadosamente para evitar erros de referência. Se quiser testar seu entendimento, tente completar estas frases: "Não confio ___ informação que você passou" e "Analise ___ proposta que apresentamos agora". A primeira pede "dessa", pois se refere à informação dada pelo interlocutor. A segunda pede "desta", pois a proposta é do grupo do falante, próxima no contexto discursivo.