Uso de desse e desta na prática
A confusão entre essas formas não é frescura de quem está aprendendo. É um problema real que aparece em revisão textual, em produção de conteúdo e até em conversas profissionais quando a gente precisa escrever com clareza. O problema é que o português tem uma camada de demonstrativos que o inglês simplesmente não possui, e isso gera ambiguidade o tempo todo. O funcionamento básico é o seguinte: usa-se deste/desta quando o referente está próximo de quem fala, e desse/dessa quando o referente está mais próximo de quem ouve. Parece simples até você se deparar com um texto técnico onde "esse documento" pode se referir a qualquer coisa no contexto. Aí a coisa complica.
dessa ou desta exemplos
Vou mostrar como funciona na prática, sem muita enrolação. Quando você quer apontar algo que está na sua mão ou acaba de mencionar, usa esta: "desta forma", "deste modo". Quando o assunto já foi apresentado e agora está mais distante no campo do ouvinte, usa essa: "dessa maneira", "deste outro lado". Mas isso varia conforme a variedade do português também. No Brasil, a linha é mais flexível do que em Portugal, onde o uso dos demonstrativos tem regras um pouco mais rígidas. Um exemplo concreto. Eu estava revisando um relatório técnico e o texto dizia "nesse caso, deve-se aplicar esta solução". A ambiguidade era clara: qual dos dois casos? Qual das duas soluções? Eu rewrite para "neste caso específico, deve-se aplicar a solução descrita na seção 3.2". Fim daambiguidade. Não precisei usar nenhum demonstrativo que causasse confusão.
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Aqui vai uma nuance que quase ninguém ensina: em português brasileiro coloquial, esse frequentemente substitui este quando o falante quer apenas retomar um termo já mencionado, mesmo estando próximo. Isso é normal na fala, mas em escrita formal pode passar a impressão de desleixo. Se você está escrevendo para um público que cobra norma culta, prefira ser explícito: em vez de "leia esse capítulo", escreva "leia o capítulo acima". Outro problema que eu encontrei repetidamente: quando se fala de tempo. "Este mês" versus "esse mês". "Este mês" é o mês atual, aquele em que estamos. "Esse mês" pode se referir a um mês já citado anteriormente, mesmo que não seja o corrente. Eu vi várias vezesa gente usar "esse mês" querendo dizer "agora", e o leitor interpretar como referência a um mês passado. Em comunicação profissional, isso gera mal-entendidos que podem custar reunião ou prazos perdidos.
Se você quer praticar, não adianta só decorar regras. Pegue um texto seu antigo, daqueles que você escreveu há uns meses, e releia procurando os demonstrativos. Marque cada "este", "esse", "aquel e veja se a escolha faz sentido no contexto. Na maioria das vezes, você vai achar pelo menos dois ou três onde a escolha foi inadequada. Isso é normal. Eu fiz isso com um contrato de prestação de serviços e encontrei sete usos problemáticos de demonstrativos em duas páginas. O ponto mais importante é: não existe regra absoluta que funcione em todosos contextos. O que funciona depende do registro, do interlocutor e da modalidade. Em texto escrito formal, ser explícito é sempre mais seguro do que depender do demonstrativo para carregar o sentido de proximidade ou afastamento. Se você tem dúvida entre este e esse, troque por uma perífrase que deixe claro o referente. Vai demorar dois segundos a mais, mas evita retrabalho depois.
Resumindo o que importa: a diferença entre dessa e desta não é apenas gramatical, é pragmática. O uso errado não é um erro de língua, é um erro de comunicação. E na prática profissional, comunicação errada custa mais do que tempo gasto revisando.