A diferença real entre "dessa forma" e "desta forma"
Muita gente acha que são sinônimos. São. Em pelo menos 90% dos casos do dia a dia, dá no mesmo. O problema é que o resto dos 10% é onde as pessoas tropeçam, e aí a coisa fica engraçada — ou constrangedora, dependendo de quem está lendo. A regra clássica, aquela que você vê em todo manual de norma culta, é simples demais pra ser útil na prática. "Dest" indica proximidade com quem fala. "Dess" indica proximidade com quem ouve. Ponto. Mas a realidade é mais bagunçada.
dessa forma ou desta forma: quando a regra não se aplica
Eu tive um caso específico num edital de licitação há alguns anos. Precisávamos descrever um procedimento técnico e o revisor jurídico do contrato mandou de volta com uma observação sobre o uso de "desta forma" versus "dessa forma" num parágrafo que explicava como um equipamento deveria ser instalado. A frase original dizia algo como "o procedimento deve ser realizado desta forma, conforme especificações do fabricante". O revisor apontou que, como as especificações estavam em documento físico entregue ao contratado, o correto seria "dessa forma", pois o referente estava mais perto de quem recebia a documentação do que de quem redigiu. Sério. Gastei vinte minutos tentando decidir se aceitava a alteração ou não. No fim, aceitei. Não porque estava tecnicamente certo, mas porque em contextos formais como esse, o revisor tem poder de veto e o custo de brigar por uma preposição não compensa. Mas a lição que ficou é que a norma gramatical pura colide com a pragmatica da situação todo dia.
O que pouca gente explica é que o português brasileiro, especialmente na fala, tende a nivelar essa diferença. Em grande parte do território nacional, "desta" e "dessa" soam iguais pra muita gente. Até mesmo pessoas com formação sólida às vezes não percebem a distinção quando estão conversando. Isso significa que em textos informais, emails entre colegas, postagens em redes sociais — esquece. Use o que soa melhor no seu ouvido. Porém, em textos formais, artigos acadêmicos, contratos, documentos oficiais, a distinção existe e quem lê vai notar se você errar. Não porque seja uma questão de gosto, mas porque sinaliza descuido com o registro linguístico adequado ao gênero textual.
O que esses pronomes realmente indicam
Vamos ao básico sem rodeios. Os demonstrativos "deste/desta/destes/destas" e "desse/dessa/desses/dessas" vêm do latim "de hoc" e "de illo" respectivamente. "Dest" carrega a noção de proximidade espacial ou discursiva em relação ao falante. "Dess" carrega a noção de proximidade em relação ao ouvinte ou de afastamento em relação a ambos. Mas o pulo do gato é que "proximidade" aqui não é só física. É também discursiva. Quando você diz "desta forma", pode estar se referindo a algo que você mesmo acabou de mencionar no texto. Quando diz "dessa forma", pode estar se referindo a algo que seu interlocutor acabou de mencionar, ou a algo que está implícito no contexto compartilhado.
Um exemplo prático rápido. Imagine uma conversa: Você: "Precisamos refazer o relatório. Destra forma, o cliente vai entender melhor os dados."
Nesse caso, "desta forma" se refere à forma que você mesmo acabou de propor. Se você tivesse dito "nessa forma", estaria se referindo a algo que o outro falou antes. E se dissesse "dessa forma", estaria indicando algo distante, alheio à iniciativa de ambos. A confusão mais comum que vejo é quando as pessoas usam "dessa forma" como sinônimo genérico de "assim" ou "desse jeito", sem considerar se o referente está perto do falante ou do ouvinte. Em muitos contextos informais isso passa despercebido. Em contextos formais, não.
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Como decidir na prática
Aqui vai o método que eu uso, e que funciona na maioria das situações: Primeiro, identifique o referente. O que você está descrevendo como "forma"? É algo que você acabou de propor? Então "desta forma". É algo que o outro propôs ou que está no contexto dele? Então "dessa forma". É algo neutro, genérico, que não se liga a nenhum dos dois? Nesses casos, o português permite flexibilidade, mas "dessa forma" tende a ser mais seguro em registros formais porque soa menos assertivo e mais observacional.
Segundo, considere o gênero textual. Num email rápido pro colega de trabalho, a escolha é irrelevante. Num parecer jurídico, num artigo para periódico, numa peça processual, a escolha importa. Nesse tipo de texto, a consistência é mais importante do que a perfeição absoluta. Se você começou usando "desta forma" pra se referir a algo seu, mantenha o padrão. Terceiro, leia em voz alta. Parece bobagem, mas a diferença fonética entre "desta" e "dessa" em muitas variedades do português é mínima. O ouvido treinado percebe pela entonação, não pela pronúncia isolada. Se você estiver em dúvida, ler o trecho em voz alta ajuda a sentir qual soa mais natural no fluxo do texto.
O que a banca examinadora quer saber
Se você está estudando para concurso ou vestibular, a boa notícia é que a pergunta sobre "desta" versus "dessa" é extremamente previsível. A banca vai apresentar um trecho e pedir pra você identificar se o uso está correto ou não. O segredo é lembrar que a banca geralmente segue a norma padrão estrita, não a variação real do português falado. Na norma padrão, a regra de ouro é: "desta" refere-se a algo próximo do eu-língua. "Dessa" refere-se a algo próximo do tu-ouvinte ou afastado de ambos. Se a banca criar ambiguidade proposital, como num contexto onde o referente poderia ser interpretado de ambas as formas, a resposta correta é aquela que respeita a lógica do enunciado, não a que parece mais "comum" na fala coloquial.
Um pitfall clássico: questões que apresentam frases como "Faça dessa forma que indiquei" — em algumas interpretações, isso seria um erro porque "dessa forma" sugeriria que a forma está perto do ouvinte, mas o relativo "que indiquei" mostra que é o falante quem indicou. O correto seria "desta forma". Mas cuidado, porque em muitas regiões do Brasil essa distinção é tão diluída que até falantes nativos com ensino superior podem não perceber o erro.
Quando ignorar a regra
Aqui eu sou brutalmente honesto: na escrita cotidiana profissional, na grande maioria dos emails, relatórios internos, mensagens corporativas, ninguém vai corregê-lo por usar "dessa forma" onde o padrão exigiria "desta forma" ou vice-versa. O que as pessoas realmente notam são erros muito mais graves — concordância verbal mal feita, regência duvidosa, pontuação que transforma o sentido da frase. O uso indevido de demonstrativos é considerado um erro de nível iniciante por revisores experientes, mas raramente é motivo para rejeição em contextos que não sejam estritamente normativos. Se você trabalha com conteúdo, redação publicitária, tradução ou coisas do tipo, aí sim a precisão faz diferença. Nesse meio, um erro de demostrativo pode soar como falta de domínio técnico, mesmo que o restante do texto seja impecável.
Uma alternativa segura em situações de dúvida é usar construções que evitam o problema completamente. Em vez de "proceda desta forma", diga "proceda conforme o indicado". Em vez de "entenda dessa forma", diga "entenda da maneira descrita". Essas perifrases são um pouco mais verbosas, mas eliminam a ambiguidade demonstrativa e soam naturais em praticamente qualquer registro. No fim das contas, "dessa forma" e "desta forma" não são inimigos. São ferramentas com usos específicos. Conhecer a diferença é útil, mas não é o conhecimento mais importante que você precisa ter sobre o português. Erros de concordância, regência e pontuação causam muito mais dano comunicativo do que um demonstrativo trocado. Foque nos grandes problemas primeiro. A restrição técnica fica pra depois.