O cordel de Ariano Suassuna na prática
Trabalhar com cordel como o de Ariano Suassuna não é coisa de faculdade. É pegar o que existe de mais cru na cultura popular nordestina e tentar manter a métrica de pé sem virar paródia. A gente costuma achar que basta rimar e usar setilinhas, mas a diferença entre um cordel que funciona e um que parece amador é absurda. Eu já tentei escrever em metro setilábeis sem me dar conta de que a sílaba tônica da nona posição muda completamente o ritmo. O texto fica travado, parecendo máquina de escrever. Achei que o problema era meu verso, quando na verdade eu estava contando as sílabas erradas.
Como estruturar um cordel de ariano suassuna autêntico
A principal referência aqui é a cordel de ariano suassuna, que segue regras específicas que ele mesmo levou para o teatro e para a literatura de cordel. Suassuna não era cordelista no sentido tradicional do termo, mas apropriou-se da forma com um rigor técnico que poucos conseguem replicar. Vou direto ao ponto. O cordel sertanejo que ele defendia tem essas camadas:
Metragem: A versificação predileta dele é a redondilha maior, isto é, o setilábeis Heroico (8 sílabas poéticas), organizada em estrofes decassílabas ou sextilhas. Não invente meter diferentes no meio do texto só porque acha que vai dar variedade. O leitor de cordel detecta troca de metro na primeira linha. Rima: O padrão de rimas nas sextilhas é ABABCB ou AABBCC. Nas decassilas, costuma ser ABABCDCD. Se você quebrar esse padrão sem motivo estrutural, o cordel perde a musicalidade e vira prosa com traço.
Temática: Loveiras, lendas, heróis sertanejos, questões morais. Suassuna misturava tudo isso com uma camada de religiosidade popular muito forte. O cordel dele tem santo, tem diabo, tem cavaleiro, tem mulher forte. Não adianta colocar folclore genérico sem a carga específica do Nordeste brasileiro. Linguagem: Falado do interior, mas com cuidado. O coloquialismo precisa existir, mas não pode soar forçado. A gente vê muito cordel que usa "ois", "xeu", "cadmé" de um jeito que parece pesquisa no Google, não vivência real.
Um problema que eu encontrei na prática
Tentei adaptar um texto de Suassuna para encenação e me deparei com um problema específico: as rimas consoantes perfeitas que ele usa no O Auto da Compadecida e nos folhetos dele são tão apertadas que, ao montar a encenação com fala naturalizada, os atores quebravam o ritmo a cada verso. Perdia-se completamente o efeito dramático. A solução que funcionou foi simples e pouco óbviosa: eu manteve o texto original nas pausas dramáticas e nos momentos de declaração solene, mas nos diálogos internos e nas transições, eu trabalhava com falas em verso solto dentro da mesma métrica base, deixando a rima presente mas não obrigatória em cada linha. Isso preservei a identidade do cordel sem travar a atuação. Funcionou em ensaios, e a plateia não percebeu a diferença — o que, num palco, é tudo.
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O que ninguém te conta sobre esse tipo de cordel
O contador de historeias não lê. O cordel funciona quando é declamado. Se você escrever algo que só pode ser lido em silêncio, provavelmente errou a estrutura rítmica. Eu já vi cordelistas profissionais desistirem de um texto porque perceberam que o verso não "entrava na boca" quando eles tentavam declamar em voz alta. Suassuna tinha uma pegada diferente dos cordelistas tradicionais. Ele era acadêmico, dramaturgo, compositor. O cordel dele carrega essa dualidade: tem o jeito caipira de contar, mas com uma precisão estrutural de quem escreve para o teatro. Muitos que tentam copiar apenas o tom vernáculo perdem a arquitetura interna que faz o texto funcionar. O resultado é superfícial.
Não existe "fácil." Escrever em metro setilábeis com rimas consoantes em português é tecnicamente mais restritivo do que em inglês, por causa da riqueza de terminações verbais. Isso não é desculpa para não fazer — é só um fato que explica por que há tantos cordéis ruins por aí. Quem domina a forma consegue transformar a limitação em vantagem.
Por onde começar
Li O Auto da Compadecida em versão de cordel completo, depois A Queda e a Ascensão de Hortêncio do Socorro e os folhetos reunidos em Página de Cordel. Anotava os padrões de rima de cada estrofe e tentava identificar os versos-título (aqueles que repetem a palavra-chave da matéria). Esse exercício de análise técnica é o que mais ensina, mais do que ler criticas ou assistir vídeos no YouTube. Depois disso, tente escrever um texto de 20 estrofes seguindo estritamente a métrica. Não importa se é bom ou ruim. O importante é perceber onde o verso trava, onde a rima fica forçada, e onde a linguagem soa verdadeira. A gente melhora só assim, com tentativa e erro registrados no papel.
Onde encontrar material de referência
O Acervo Ariano Suassuna, em Recife, disponibiliza partituras, manuscritos e folhetos digitalizados. A Fundação Joaquim Nabuco também tem acervo relevante sobre literatura de cordel nordestina. Para quem quer o texto puro, as edições da Editora Universitária da UFPE e a coleção da Nova Fronteira com prefácios de autores como Jorge Amado são boas fontes. Para fins acadêmicos, a tese ARIANO SUASSUNA E O CORDÉL: DA TRADIÇÃO À INOVAÇÃO de Maria Aparecida de Lima e Silva (UFPE, 2018) mapeia exatamente como ele reelaborou a forma tradicional. É densa, mas direta.
Limitações que vale a pena saber
Esse tipo de cordel exige domínio técnico que leva anos para desenvolver. Não existe atalho. Texto escrito às pressas nesse estilo quase sempre soa artificial, e o público nordestino, que é o mais exigente e conhece bem a tradição, percebe na hora. O risco é grande de o texto ficar bonito no papel e fraco na leitura. Se o seu objetivo é apenas registrar uma história em versos rimados para uso interno ou estudo, considere usar a viola de emboleiro em formato mais livre, sem obrigar a métrica. Se quiser algo mais acessível, há coletâneas de cordéis contemporâneos de João Cabral de Melo Neto e Lemberto Rosa que mostram variações mais experimentais.
O cordel de Ariano Suassuna é uma forma viva. Não precisa de reverência para funcionar, mas precisa de respeito técnico. O resto é esforço demais para pouco resultado.