Como O Culto Dos Africanos Eram Desenvolvidos Aqui No Brasil - Por que os africanos foram escravizados no Brasil? | Nova Escola
Por que os africanos foram escravizados no Brasil? | Nova Escola

Origens e práticas religiosas africanas no Brasil colonial

O culto dos africanos eram desenvolvidos aqui no brasil de uma maneira que a maioria das pessoas não percebe quando olha apenas a superfície. A estrutura religiosa trazida pelos povos africanos escravizados não era uma simples adaptação do cristianismo europeu. Era um sistema complexo de sobrevivência, resistência e memória, construído sob condições extremamente hostis.

como o culto dos africanos eram desenvolvidos aqui no brasil

O processo de desenvolvimento desses cultos começou com uma necessidade prática. Os colonizadores portugueses proibiam explicitamente a prática de religiões africanas. Isso significava que qualquer ritual coletivo tinha que ser camuflado. A forma mais eficiente de fazer isso foi a sincretização com o catolicismo. Os orixás, inquices e voduns foram associados aos santos católicos, mas isso era uma fachada. Dentro do Terreiro, a hierarquia e os significados permaneciam intactos e conhecidos pelos praticantes. A organização básica funcionava em volta da figura do Babalorixá ou Ialorixá, líder espiritual de cada comunidade. Esses líderes normalmente eram mulheres, o que já representa algo importante: em muitas sociedades iorubas e bantu, as mulheres detinham autoridade religiosa antes mesmo da chegada ao Brasil. Nas senzalas, essa hierarquia feminina se mostrou crucial para manter a coesão social e a transmissão oral de conhecimento. O terreiro funcionava como um centro religioso, mas também como um ponto de apoio material, troca de informações e preservação de laços de parentesco entre pessoas deslocadas de várias regiões africanas diferentes.

Uma coisa que poucos entendem é que o cultivo desses rituais exigia um esforço logístico enorme. Cada cerimônia demandava materiais específicos: velas de cores determinadas, folhas medicinais colhidas em épocas específicas, alimentos que muitas vezes precisavam ser obtidos fora do quintal da senzala. Eu já vi relatos de pessoas que passavam semanas preparando os oferendás porque não podiam comprar tudo de uma vez. Um simples atendimento no barracão podia envolver doze a quinze itens diferentes, todos preparados com antecedência, o que tornava cada sessão algo planejado com meses de antecedência, não apenas uma reuniao improvisada. A transmissão do conhecimento funcionava de forma oral e prática. Não havia livros sagrados no sentido tradicional. O que existia eram versos cantados, preverbios, orações transmitidas de geração em geração dentro do terreiro. Um iniciante levava entre três a cinco anos para dominar os fundamentos básicos. Isso incluía aprender a cantar os atabaques corretamente, conhecer as propiedades de pelo menos trinta folhas medicinais, e memorizar a genealogia espiritual de sua linha de origem. Os mais dedicados levavam décadas.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Os candomblés de nação tinham variações importantes dependendo da proveniencia dos escravizados. Os batuques de angola, por exemplo, tinham uma estrutura mais marcada pela centralidade do culto aos ancestrais e uma liturgia mais simples. Os iorubas desenvolvem um sistema mais elaborada de classificação dos orixás e uma liturgia mais complexa. Os jejes tinham uma forte tradiçao de adivinhaçao com búzios que se mantinha relativamente independente das outras nações. Misturar esses elementos era comum, mas cada comunidade mantinha suas prioridades distintas. Um problema muito real que enfrentava era a vigilância policial. A polícia brasileira, até o início do século XX, tinha leis específicas contra o que chamavam de "magia africana" e fazia invasões aleatórias em terreiros. A resposta padrão era destruir ou esconder os objetos de culto imediatamente. Eu conheço casos registrados de ialorixás que enterravam os axés no quintal quando recebiam o aviso da abordagem. Outro procedimento comum era ter um espaço de culto principal escondido e um segundo espaço mais discreto para atendimentos rápidos que não exigissem grande quantidade de materiais.

Outro aspecto pouco mencionado é a questão financeira. Manter um terreiro custava significativamente mais do que a maioria imaginava. As festas de santo envolviam a compra de animais para sacrifício, que podiam custar o equivalente a semanas de salário de um trabalhador comum na época. Além disso, havia o custo com alimentação para todos os participantes durante os dias de cerimônia. Muitos terreiros se sustentavam com a ajuda econômica dos membros mais abastados da comunidade, o que criava dinâmicas de poder internas nem sempre saudaveis. A capoeira estava diretamente ligada a esses espaços religiosos. Muitos mestres de capoeira eram também praticantes ativos dos cultos de matriz africana. A música de berimbau, por exemplo, tem origens diretamente relacionadas aos rituais angola. Isso mostra como a cultura africana se entrelaçava de formas que iam muito além do estritamente religioso.

Um detalhe técnico importante: o uso do jogo de búzios como ferramenta de consulta exigia uma formação específica que levava anos. O iniciado precisava conhecer centenas de jogos diferentes, cada um com dezenas de interpretacoes possiveis. Na prática, muitos terreiros tinham apenas um ou dois jogadores de búzios, e quando esse profissional falecia, grande parte do conhecimento acumulada se perdia. Isso explica por que tantos registros históricos estão incompletos. O tráfico negreiro trouxe pessoas de dezenas de etnias diferentes. Yorubás, Fon, Banto, Nago, Jeje, Minas, Cabinda. Cada grupo trazia suas proprias divindades, seus proprios rituais, sua propria cosmologia. A miscigenação religiosa no Brasil não foi um processo harmonioso. Houve conflitos, disputas de autoridade e tentativas de dominação de uma nação sobre outra dentro dos próprios terreiros. A coexistência que vemos hoje é resultado de seculos de negociações, compromissos e, ás vezes, simplesmente da necessidade de sobreviver juntos.

Até hoje, essa dinamica persiste em formas diferentes. O que mudou foi a capacidade de funcionar abertamente, algo que só se consolidou no final do seculo XX com o reconhecimento jurídico das entidades religiosas de matriz africana. Antes disso, a pratica era marginalizada, criminalizada e frequentemente associada a interesses obscuros pela mídia e pelas autoridades.