A estrutura básica que todo mundo esquece
O relato de caso é simplesmente uma descrição detalhada de um paciente que apresenta uma condição incomum, uma reação inesperada a tratamento, ou uma apresentação clínica que desafia o padrão. Você já viu isso na prática clínica e precisa documentar. A maioria das pessoas começa pelo diagnóstico e termina confundido. O fluxo certo é mais linear do que parece: identificador do paciente (sem nome, só iniciais ou código), queixa principal, histórico relevante, achados, evolução e discussão com a literatura. Já me deparei com um caso de miocardite por imunoterapia em paciente de 58 anos com história de melanoma estáágio I. O tricky foi que a troponina estava levemente elevada mas o ecocardiograma inicial parecia normal. Eu perdi duas horas tentando encaixar no formato padrão porque o achado principal era negativo nos exames de imagem. A solução foi usar a sequência Temples, que prioriza a cronologia dos sintomas sobre os resultados normais. Se o exame é normal, você coloca depois da narrativa clínica, não antes.
Passo a passo real de como fazer um relato de caso
Você vai precisar de três coisas: o prontuário completo, o consenso STROBE ou a diretriz da revista-alvo, e pelo menos dois coautores que tenham publicado anteriormente. Não pule essa parte. Revistas como BMJ Case Reports e Cureus rejeitam relatos sem acompanhamento adequado de seguimento ou sem discussões que contrastem com literatura recente. Escreva primeiro a linha do tempo. Data do primeiro sintoma, data do diagnóstico, datas de cada intervenção, data da alta ou óbito. Isso evita contradições depois. Eu vejo todo tipo de erro aqui: paciente que teve reação adversa em março mas o relatório diz abril, tratamento iniciado antes do diagnóstico confirmado por biópsia. Revisores pegam isso na hora.
A introdução não pode ter mais de três parágrafos. Primeiro parágrafo contextualiza a doença ou condição. Segundo parágrafo mostra o gap no conhecimento ou a raridade. Terceiro parágrafo diz explicitamente o que o caso aporta. Nada de "relatos na literatura são escassos" sem dados concretos. Cite quantos casos existem, se souber. Na parte de caso clínico, use subtítulos. História do paciente, Exames complementares, Intervenção, Evolução. Seja cirúrgico. Idade, sexo, comorbidades relevantes, medicamentos em uso. Não liste tudo que o paciente comeu no café da manhã. Informações irrelevantes diluem a leitura.
Os exames devem ter datas e valores de referência. Se possível, inclua imagens. Ressonâncias, tomografias, fotos de lesões cutâneas. Figuras valem mais que trezentas palavras de descrição. Mas verifique se a revista permite imagens com informações identificáveis. Alguns journals pedem remoção completa de metadados. A discussão é onde a maioria erra. Ela deve ter quatro partes: interpretação dos achados, comparação com literatura existente, mecanismo fisiopatológico proposto (se aplicável), e lições aprendidas. Não repita o que já escreveu no caso clínico. A discussão é análise, não resumo.
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Limitações do estudo são obrigatórias em praticamente todas as revistas hoje. Se é um relato de caso único, reconte isso. Não tente disfarçar. Diga que não há generalização, que o acompanhamento foi curto, que o paciente tinha comorbidades que podem interferir. Revisores apreciam honestidade. O acompanhamento é o ponto que mais gera rejeição. Se o paciente morreu, informe a data e causa. Se está vivo, informe há quanto tempo foi seguido e se há sinais de recorrência. Relatos sem seguimento mínimo de trinta dias são facilmente descartados em revistas de impacto médio.
Erros que eu cometi e que vou evitar pra você
A primeira vez que tentei publicar um relato, enviei sem o formulário de consentimento assinado pelo paciente. A revista pediu correção em quinze dias. Eu não tinha o formulário original e o paciente não lembrava. O caso foi rejeitado. Sempre anexe o consentimento logo na submissão, mesmo que a revista não mencione no guia ao autor. Muitas têm política implícita de exigência. Outro erro frequente é exagerar a raridade. Você acha que é o décimo caso mundial de algo. Pesquisa rápida mostra que já existem sessenta relatos. Não minta. Use "relato adicional" em vez de "primeiro caso descrito". Revisores fazem busca e você perde credibilidade na hora.
Há também o problema do tamanho. Relatos precisam ser curtos. BMJ Case Reports pede máximo de mil palavras. CureUS permite até doze mil mas recomenda-se ficara quatro mil. Extravasar não ajuda. Se precisa de mais espaço, transforme num case series ou artigo original. Formatação de referências é outro bicho. Use o estilo da revista exato. EndNote e Zotero ajudam, mas você precisa verificar manualmente as primeiras dez referências. Muitos journals trocam automaticamente e colocam vírgulas onde não devem ou invertem nome e sobrenome. Erros de formatação são sinal de descuido e revisores associam descuido com má qualidade científica.
Quando não usar relato de caso
Se você tem mais de cinco casos semelhantes, não faça relato individual. Faça série de casos. Se tem dados quantitativos, vá de artigo original. Relato de caso existe para situações únicas ou com aprendizado muito específico. Forçar um relato quando você tem material suficiente para outro tipo de publicação é desperdício de tempo seu e do revisor. Também não envie para revista errada. Relatos de dermatologia vão para dermatológicos. Relatos de emergência vão para journals de emergenciologia. Enviou caso de amiloidose para revista de cardiologia geral e vai esperar rejeição rápida. A menos que o caso tenha implicação cardiológica direta, o editor vai transferir ou recusar.
O processo todo leva entre vinte e cinco e quarenta horas se você já tiver os dados organizados. Sem organização prévia, dobra o tempo. Eu costumo levar duas semanas do zero à submissão porque preciso esperar autorização do paciente, revisar figuras, e ajustar linguagem conforme guia do autor. Não subestima a parte administrativa. Resumindo: organize cronologicamente, use figuras quando possível, seja honesto sobre limitações, verifique consentimento, compare com literatura atual, e não force formato inadequado. O resto é as regras da revista específica que você escolheu.