O básico que ninguém explica direito
A citação direta é quando você transcreve exatamente o que o autor escreveu, entre aspas ou em recuo, e precisa dar os créditos corretos. O padrão ABNT NBR 10520-2002 define como fazer citação direta, mas na prática as coisas são mais chatas do que a norma sugere. A regra simples é: até 3 linhas, coloca-se entre aspas; acima de 3 linhas, usa-se recuo de 4 cm, fonte menor (geralmente 10) e espaçamento simples. O sobrenome do autor e o ano vão entre parênteses antes da pontuação final, e a página sempre aparece depois. Isso parece tranquilo até você se deparar com um documento digital que não tem paginação. Aí a coisa desandou.
Como fazer citação direta passo a passo
Primeiro, decida se a citação é curta ou longa. Curtas (até 3 linhas) ficam embutidas no parágrafo, entre aspas duplas. Longas (mais de 3 linhas) ganham parágrafo próprio, recuado, sem aspas. Depois, copie o texto integralmente. Não corte, não adapte, não "melhore" a gramática do original. Se precisar omitir algo, use reticências entre colchetes. Se quiser adicionar uma explicação sua no meio, use colchetes também. A página exata é obrigatória — sem número de página, a citação direta não existe para fins acadêmicos sérios. O formato de referenciação muda ligeiramente dependendo do tipo de fonte. Livro impresso pede SOBRENOME, Ano, p. XX. Artigo de periódico também, mas com o destaque do volume e número se houver. Citação de site sem paginação tradicional é onde a maioria dos estudantes trava.
Aqui vai um exemplo real de como fica no texto: "A organização do trabalho pedagógico deve considerar a articulação entre conteúdos e práticas avaliativas, de modo que a avaliação deixe de ser um momento isolado e passe a integrar o processo formativo" (LIBÂNEO, 2013, p. 275).
Acima, citação direta curta. Veja que o autor está em maiúsculas, o ano entre vírgula, e o "p." indica a página. Na lista de referências no final, a entrada seria completa com título, editora, cidade, etc., seguindo o padrão da mesma norma. Para citação longa, o visual muda. Imagine um bloco assim:
"O conceito de currículo, tal como hoje o compreendemos, não é um produto neutro. Ele carrega em si relações de poder, disputas culturais e projetos sociais que ultrapassam o âmbito escolar. A análise crítica do currículo exige, portanto, uma compreensão das condições históricas e políticas que o constituem." (SOUZA, 2018, p. 42).
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Um problema real que quase ninguém avisa
Eu estava revisando uma tese de doutorado há alguns anos e o orientando havia citado um artigo online de uma revista brasileira que não tinha paginação numérica — os artigos vinham numerados sequencialmente, tipo "artigo 7", sem páginas reais. Ele colocou "art. 7" no local da página e eu rejeitei o capítulo porque a norma não prevê essa abreviatura como equivalente a "p.". Perdi duas semanas refazendo referências por causa disso. A solução que funcionou foi consultar o artigo na versão PDF impressa, que tinha numeração de página real, e usar aquela. Se não houvesse versão impressa, a alternativa seria usar a seção ou o parágrafo identificado, desde que a instituição aceitasse. Nem todas aceitam. O mais seguro: verifique com seu orientador ou coordenador antes de depender de fontes sem paginação tradicional.
O que os iniciantes sempre erram
O erro mais frequente é confundir citação direta com citação indireta. Direta exige verbatim — palavra por palavra. Indireta é parafrasear, e aí não precisa de número de página (embora seja recomendável colocar para facilitar a leitura). Muitos estudantes colocam parênteses com autor e ano em citações indiretas como se fossem diretas, e isso não está errado, mas gera confusão na hora da revisão. Outro erro crônico: esquecer que em citações diretas com mais de um autor, a forma de indicação no corpo do texto depende da estrutura da frase. Se o autor faz parte da frase, usa-se "ANDRADE e SILVA, 2019". Se está entre parênteses, usa-se "ANDRADE; SILVA, 2019". O ponto e vírgula versus a conjunction "e" não é detalhe cosmético — avaliadores perseguem isso.
Há também a questão das citações de citações, aquelas com "apud". A norma de 2002 eliminou o "apud" como recomendação padrão e passou a exigir que se cite a fonte original diretamente. Na prática, muitas vezes você não tem acesso ao livro citado pelo autor que você leu. A solução aceitável, embora não ideal, é mencionar o original e indicar "apud" a fonte secundária que você efetivamente consultou. Algo como: (ORIGAL, 1995 apud SECUNDÁRIO, 2020, p. 55). Use isso com moderação e apenas quando for realmente impossível localizar a obra original.
Limitações que a norma não cobre
A NBR 10520 foi feita para impressos. Fontes digitais, tweets, artigos de blog, vídeos do YouTube — tudo isso escapa do escopo original. Para esses casos, a prática acadêmica brasileira tem se adaptado usando o formato da fonte mais próxima disponível, mas resultados variam conforme a banca ou o programa. Alguns programas de pós-graduação aceitam citação de vídeo com timestamp no lugar de página (ex.: (Autor, 2021, 15min30s)). Outros rejeitam. Sempre confirme antes. Também vale saber que a norma de 2002 está sendo revisada. Há projetos em tramitação que podem alterar prazos, formatos e até a exigência de página em certos tipos de fonte. Se seu trabalho for para publicação ou defesa formal, verifique com seu orientador qual versão da norma está vigente no seu programa. Trabalhar com base em uma norma que pode estar Obsoleta é um risco desnecessário.
Dica prática que economiza tempo
Use um gerenciador de referências como Zotero ou Mendeley. Eles formam automaticamente as citações diretas e indiretas, geram a lista de referências e atualizam o estilo conforme a norma que você escolher. Eu gasto cerca de 15 minutos configurando o Zotero com o estilo ABNT correto, e isso elimina talvez 80% dos erros de formatação que vejo em trabalhos estudantis. O custo é aprender a usar a ferramenta corretamente, o que leva umas três horas de configuração inicial. Vale muito a pena. Se você não quer usar gerenciador, pelo menos mantenha um arquivo de controle com: autor, ano, título completo, página exata e URL ou local de acesso. Quando estiver escrevendo, você não vai lembrar de onde tirou cada informação. Eu sei porque já deixei passar citações sem referência completa e tive que caçar o fonte original depois de duas semanas — o que praticamente nunca funciona bem porque links quebram e PDFs somem.
Como fazer citação direta em situações incomuns
Citação de obras com múltiplos volumes pede o volume específico. Citação de legislação pede o artigo, parágrafo ou inciso, não página. Citação de e-mails ou comunicação pessoal não tem como ser incluída nas referências — trata-se como fonte de comunicação pessoal, com data e identificação do remetente. Nada disso é óbvio lendo apenas a norma, mas são perguntas que aparecem todo ano em editais e bancas. O essencial é manter consistência. Escolha um padrão e siga até o final. Misturar estilos no meio do trabalho é o que mais gera reprovação em revisões preliminares, muito mais do que um detalhe isolado de formatação.