O que é e por que todo mundo faz errado
Citação de citação, também chamada de citação indireta, acontece quando você referencia um autor (vamos chamá-lo de Autor A) que você não leu diretamente, mas cujo trabalho você conheceu por meio de outro autor (Autor B) que citou o original. A ideia básica existe em todas as normas, mas a forma de executar isso muda drasticamente dependendo de qual padrão você está usando. A maioria das pessoas erra porque trata todas as normas como se fossem idênticas, e elas não são. No dia a dia acadêmico, isso surge com mais frequência do que deveria. Você está lendo um artigo sobre memória de trabalho e encontra uma referência a um estudo clássico de 1975. Você não tem acesso ao artigo original, mas precisa citar aquela informação. A solução técnica existe, mas cada biblioteca exige um tratamento diferente.
Como fazer citação da citação nas normas mais usadas
Vamos começar pelo que é mais comum no Brasil. Na ABNT NBR 10520:2023, a regra para citação de citação segue um formato bem específico. No corpo do texto, quando a citação é direta (transcrição literal), você coloca o sobrenome do autor original, seguido da expressão latina apud, e depois o sobrenome do autor que você realmente leu, ano deste último, e a página. Veja: Piaget (1978 apud SILVA, 2020, p. 45) afirma que o estágio operatório concreto se estabelece entre os sete e os onze anos.
Note que o ano que aparece após o apud é o do Autor B, o que você de fato consultou. O ano do autor original (Piaget, 1978) fica antes do apud, sem vírgula. Isso é importante porque muitos estudantes colocam o ano do original depois do sobrenome do autor original e criam uma confusão desnecessária que bancas de avaliação corrigem como erro formal. Para citações indiretas (paráfrase), a regra é a mesma estrutura com o apud, mas sem indicação de página obrigatória, embora seja recomendado se você estiver se referindo a um trecho específico:
Vygotsky (1934 apud OLIVEIRA, 2019) sustenta que a aprendizagem precede o desenvolvimento. Já na APA 7ª edição, que é a norma mais usada em psicologia e ciências sociais em nível internacional, a coisa funciona de outro jeito. A APA não usa o apud no corpo do texto. Em vez disso, você cita o autor original na narrativa ou nos parênteses e adiciona a expressão "as cited in" (no original em inglês) seguida dos dados do autor secundário. Na lista de referências, você lista apenas o Autor B, o que você realmente leu, porque o original não foi consultado.
No corpo do texto em português adaptando a norma: Piaget (1978, apud Silva, 2020) argumenta que...
OU (Piaget, 1978, apud Silva, 2020)
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Na referência final, só entra Silva, 2020. Isso causa confusão porque muita gente tenta colocar o autor original na bibliografia, o que a APA explicitamente proíbe. O Chicago Manual of Standards, por sua vez, oferece duas opções: o sistema notas-e-bibliografia e o sistema autor-data. No primeiro, você usa uma nota de rodapé indicando o autor original e o autor intermediário. No segundo, funciona de maneira similar à APA com a expressão "quoted in".
Um problema real que quase ninguém menciona
Eu já tive um caso específico que nunca vi explicado em manual algum. Você está escrevendo uma dissertação e encontra um trecho muito importante no Autor B que atribui uma ideia ao Autor A. Até aí, tudo bem, usa o apud normalmente. Mas então, uma linha abaixo, o Autor B critica o Autor A. Você quer citar essa crítica, mas a crítica é do Autor B, não do Autor A. A questão é: você coloca Autor A apud Autor B ou Autor B (sem apud)? A resposta prática que funciona é a seguinte. Se você está se referindo à interpretação ou crítica que o Autor B fez do Autor A, use o Autor B sem apud. O apud serve apenas quando você está atribuindo diretamente ao autor original uma afirmativa que você viu no texto do autor secundário. Se o conteúdo que você quer é uma análise do Autor B, mesmo que trate do Autor A, o autor da ideia é o B. Usei essa distinção em um trabalho de mestrado e minha banca aceitou sem questionar porque a lógica é sólida: o apud indica que você não leu o original, não que todo conteúdo relacionado a um autor antigo deva ser marcado com ele.
Pegadinhas avançadas que cometemos por anos
A primeira pegadinha é a Tentação da Conveniência Acadêmica. Você acha que vai pegar o livro original no future e marca tudo como apud. Isso é aceitável quando você realmente não consegue acessar o original. Mas se o Original estiver disponível em qualquer biblioteca digital, use-o diretamente. O apud enfraquece seu argumento porque você está herdando a interpretação de outra pessoa sobre o autor original, e essa interpretação pode estar errada ou ser tendenciosa. A segunda é a questão da tradução. Quando o Autor A escreveu em alemão ou inglês e o Autor B traduziu o trecho no livro dele, você não pode simplesmente copiar a tradução do Autor B como se fosse a tradução original. Se for necessário mostrar a tradução, indique explicitamente que é sua própria tradução ou de outra fonte, citando o original quando possível. Usar a tradução do Autor B sem marcação adequada pode ser considerado plágio de tradução em algumas bancas.
A terceira pegadinha, e aqui vou ser direto porque isso é algo que vejo repetidamente em trabalhos revisados, é a confusão entre citação de citação e resumo de revisão. Quando você lê um artigo de revisão que cita dez autores diferentes ao longo do texto, cada uma dessas menções é uma possível citação de citação. O problema é que artigos de revisão frequentemente mal interpretam os trabalhos que citam. Se você usar todos eles como apud, seu trabalho carrega interpretações de segunda mão que podem estar completamente distorcidas. A solução prática é: para cada Autor A que você citar via Autor B, tente localizar pelo menos o abstract ou trechos do original. Se não conseguir, o apud é legitimamente o recurso. Mas se você fizer isso para dezenas de referências, o revisor vai perceber que você não estava lendo a literatura primária. Outro detalhe técnico que as normas raramente enfatizam é a questão da edição. Se o Autor A escreveu em 1978, mas você encontrou uma reedição de 2010 que você realmente leu, a situação muda. A reedição conta como obra original acessível. Nesse caso, você cita o Autor A diretamente, usando os dados da reedição, e usa o apud apenas se tiver encontrado a informação através do Autor B e não tiver tido contato com a obra do Autor A de forma alguma.
A questão prática: qual norma escolher?
Se você está no Brasil e escrevendo para revistas, concursos ou trabalhos acadêmicos de humanas e ciências humanas, a ABNT NBR 10520:2023 é a norma vigente. Verifique se sua instituição não tem uma norma interna própria que modifique o padrão. Algumas universidades ainda exigem a versão de 2002 da ABNT, que tinha ligeiras diferenças na pontuação do apud. Para áreas científicas internacionais, APA 7ª é o padrão dominante. A diferença principal em relação à ABNT está na falta da palavra apud na maioria das versões adaptadas em português da APA, usando-se "citado por" ou mantendo "apud" conforme a adaptação feita pelo programa ou orientador.
O ponto mais importante é que a citação de citação é sempre um recurso de última linha, não uma solução padrão. Se você está usando apud em mais de cinco ou seis referências em um trabalho, o problema não está na norma, está no fato de que você deveria estar lendo as fontes originais. Um bom orientador ou revisor identifica rapidamente quando o apud está sendo usado como atalho em vez de necessidade genuína. Na prática, o que economiza tempo não é decorar todos os formatos de apud possíveis, mas sim aprender a distinguir rapidamente quando uma citação é genuinamente indireta e quando o autor secundário está apenas comentando ou criticando o autor original. Essa distinção resolve a maioria dos problemas que aparecem na revisão final de qualquer trabalho acadêmico que envolva citação de citação.