O que é citologia e por que ela existe
A citologia é um exame que analisa células retiradas de uma região do corpo. No Brasil, o mais comum é a citologia do colo do útero, também chamada de papanicolau. O objetivo é detectar alterações celulares antes que elas evoluam para algo mais grave. Não é um exame de imagem. Não mostra estruturas internas. Mostra células. Eu fiz minha primeira citologia em 2014 e, honestamente, não sabia o que esperar. A médica explicou rapidamente, mas a verdade é que a maioria das pessoas tem medo porque ouviu falar em "biópsia" ou "câncer". Nada disso. É um esfregaço simples. Coleta-se células da transição escamoso-cubóide, essa zona onde o epitélio do colo vaginal se encontra com o endocervix. É ali que a maioria das lesões de alto grau aparece.
Como é feito a citologia no dia a dia
O procedimento dura entre três e cinco minutos. A paciente deita na maca, pés nos estribos, mesma posição da consulta ginecológica de rotina. A especulum é inserida para visualizar o colo. Em seguida, usa-se uma escova endocervical — geralmente uma Cytobrush — e um avental negróide (aquele espátula de madeira ou plástico) para coletar células da ectocérvice. Às vezes, o clínico prefere um brush cervical flexível. O material é espalhado em lâmina e fixado com spray ou álcool 95%. O restante pode ser enviado em meio líquido para citologia líquida, que é o padrão hoje em grandes laboratórios. Dica prática: não faça o exame durante a menstruação. O sangue interfere na leitura e pode mascarar alterações. Agende para o quinto dia após o sangramento cessar. Evite relações sexuais, dopplerovaginal, lubrificantes ou duchas vaginais nas 48 horas anteriores. Isso não é burocracia. É para não diluir ou destruir as células coletadas.
Limitações que ninguém conta
A citologia tem sensibilidade variável. Depende do coletor. Depende do citotécnico. Depende do patologista. Um estudo de 2018 mostrou que a sensibilidade para lesões de alto grau (HSIL) fica entre 60% e 80% na prática real, não nos artigos controlados. Falso negativo existe. E é mais comum do que se imagina. Eu vi um caso em 2019 onde uma paciente tinha resultado citológico normal, mas kept developing cervical intraepithelial neoplasia grade 3. O que aconteceu? A lesão estava sob o orifício externo, escondida. O coletor não atingiu a região. Isso é chamado de citologia insuficiente ou amostra inadequada. A solução é repetir o exame em três meses com técnica reforçada ou ir direto para colposcopia com biópsia direcionada.
Insight contraintuitivo: resultado normal não significa zero risco. Significa risco baixo naquele momento. A recomendação é repetir conforme idade e histórico. Mulheres entre 25 e 64 anos fazem teste combinado (citologia + HPV) a cada cinco anos, segundo o INCA. Se o HPV de alto risco for positivo, even normal cytology pede colposcopia.
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O que acontece após a coleta
A lâmina vai para o laboratório. Um citotécnico tria as amostras. Ele procura por células alteradas, identifica a classificação de SIL — lesão escamosa intraepitelial. Baixo grau (LSIL) ou alto grau (HSIL). Se encontrar algo suspeito, encaminha ao patologista. O patologista confirma e emite o laudo. O tempo médio varia de três dias a uma semana, dependendo da fila do laboratório. Se o resultado for NILM — negative for intraepithelial lesion or malignancy — está tudo certo. Significa nenhuma lesão intraepitelial ou malignidade. Mantém o acompanhamento de rotina. Se for LSIL, repete-se em seis meses ou faz-se colposcopia. Se for HSIL, vai direto para colposcopia com biópsia e possivelmente conização.
Problema real que encontrei na prática
Em 2021, uma paciente trouxe resultado de citologia líquida com NPUS — nonspecific atypical squamous cells. Não classifica como SIL, mas também não é completamente normal. O que fazer? A abordagem recomendada é teste de HPV em DNA. Se positivo para tipos 16 ou 18, colposcopia imediata. Se positivo para outros alto risco, repete-se citologia em um ano. Se negativo, segue acompanhamento anual. O erro comum é tratar isso como emergência. Não é. É uma zona cinzenta que pede paciência e protocolos. A paciente ficou ansiosa, mas o acompanhamento foi tranquilo. Nenhum procedimento invasivo foi feito naquele momento.
Quando a citologia não basta
Existem situações em que a citologia sozinha não resolve. Pacientes imunossuprimidas, com HIV, transplantadas, ou expostas ao dietilestilbestrol (DES) intrauterino. Nessas, a recomendação é exame mais frequente, a cada ano, independentemente do resultado. Também se considera colposcopia direta se houver sangramento intermenstrual persistente, mesmo com citologia normal. Alternativa moderna: teste de HPV primário. Ele detecta o vírus antes das alterações celulares aparecerem. Vantagem: maior sensibilidade. Desvantagem: menor especificidade. Mais mulheres serão encaminhadas para colposcopia, muitas delas com infecção transitória que resolveria sozinha. O custo-efetividade depende do sistema de saúde. No SUS brasileiro, o teste combinado já é amplamente disponível.
A citologia continua sendo o pilar do rastreamento do câncer do colo do útero. Não é perfeita. É uma ferramenta. Como qualquer ferramenta, funciona melhor quando usada corretamente, no momento certo, e interpretada por quem entende do assunto. Se tiver dúvida no resultado, peça segunda opinião. Um laudo mal interpretado pode levar a procedimento desnecessário ou, pior, a negligenciar algo real.