Como Dom Quixote Morreu - Como Dom Quixote Morreu - RETOEDU
Como Dom Quixote Morreu - RETOEDU

O Fim do Cavaleiro das Tristes Formas

A morte de Dom Quixote acontece no final da segunda parte de Dom Quixote de la Mancha, publicada em 1615 por Miguel de Cervantes. O personagem, que passou os dois volumes vivendo aventuras distorcidas pela obsessão com romances de cavalaria, tem um desfecho bem diferente do que a maioria das histórias épicas costuma oferecer. Ele não morre em batalha, cercado por inimigos ou heróis. A morte dele é doméstica, silenciosa e, de certa forma, decepcionante para quem esperava um final grandioso.

como dom quixote morreu

A sequência dos eventos é mais direta do que muitos imaginam. Após ser derrotado pelo Cavaleiro da Lua Branca — na verdade, o bacharel Sansão Carrasco disfarçado, conforme combinado com os amigos de Quixote para fazê-lo retornar a casa —, o protagonista é forçado a cumprir a condição da derrota: ficar retirado do campo por um ano inteiro. Ele volta a La Mancha, abatido, e cai doente logo que chega em casa. Durante a enfermidade, que dura alguns dias, ocorre algo curioso e frequentemente mal interpretado. Dom Quixote desperta de uma espécie de delírio e declara que não é mais o cavaleiro, massim Alonso Quijano, o Bom. Ele renega os livros de cavalaria que tanto amava, faz testamento, pede perdão aos que prejudicou e morre pacaticamente, cercado por parentes e amigos. O narrador informa que ele viveu sessenta anos e faleceu com certa dignidade, segundo os cronistas da época.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Há uma ironia estrutural interessante aqui. Cervantes poderia ter matado seu personagem de forma heroica, como se encaixasse no gênero que Quixote tanto venerava. Em vez disso, ele opta por uma morte comum, quase burocrática. Isso é parte do que torna a obra tão moderna. A morte como desilusão, não como glória. No capítulo 74 da segunda parte — o último da novela —, tudo é narrado de forma sumária. Cervantes dedica apenas algumas páginas ao desfecho, como se a história já não merecesse mais expansão. Esse ritmo propositalmente rápido também é um recurso literário. A vida do cavaleiro acabou, e o autor não quer prolongar o inevitável.

O que poucos leitores lembram é que a morte de Dom Quixote foi, na verdade, respondendo a uma situação editorial problemática. A primeira parte, de 1605, foi um sucesso inesperado. Um escritor falso, conhecido como Alonso Fernández de Avellanededa, publicou uma continuação não autorizada em 1614. Cervantes precisava fechar a história antes que a versão apócrifa ganhasse mais espaço. A morte abrupta e definitiva de Quixote serve como fechamento de livro, mas também como declaração de autoria: só eu posso decidir o que acontece com esse personagem. Se você está lendo a obra pela primeira vez e estranhou o final, isso é normal. A expectativa cultural nos preparou para desfechos mais elaborados. A sensação de vazio que o capítulo deixa é intencional. Cervantes queria que o leitor percebesse a diferença entre a fantasia cavalarinesca e a realidade ordinária, e a morte suave é a ferramenta que ele usa para isso.

Uma observação prática sobre edições: a numeração dos capítulos varia dependendo da versão. Algumas edições modernas dividem a segunda parte de forma diferente, e o capítulo da morte pode aparecer como 74 ou 75. Sempre verifique a edição que você tem em mãos. Recomendo a tradução de Eusébio Lídio de Oliveira para a Editora Martins Fontes ou a versão da Editorial Renacimiento, que mantém a estrutura original com boas notas explicativas. O legado da morte de Dom Quixote vai além da literatura espanhola. A ideia de um herói que morre renunciando às suas próprias ilusões, em vez de cair numa batalha, influenciou toda uma linhagem de finais antiépicos. Desde Madame Bovary até as novelas contemporâneas, o arquétipo do protagonista que se desmonta no fim encontra ali sua primeira expressão completa.