Como descrever atividades desenvolvidas no currículo
A maioria das pessoas escreve currículos de trás para frente. Começa listando as empresas onde trabalhou, os cargos que ocupou, e depois tenta enfiar as atividades num parágrafo genérico. Isso não funciona. A forma como você descreve o que fez define se o recrutador para ou passa adiante. Vou explicar como isso se resolve na prática.
O problema real
Eu já vi curricula com centenas de linhas descrevendo processos internos de empresas que ninguém conhece. O recrutador gasta três segundos decidindo se lê mais. A descrição precisa mostrar resultado, não processo. Não adianta escrever que você "era responsável por atendimento ao cliente". Todo mundo é. O que importa é quantos clientes você atendia por dia, qual era o índice de satisfação, quantas reclamações foram resolvidas sem escalar para um supervisor. Uma vez, um candidato me enviou uma descrição de dez linhas sobre uma rotina de planilhas. Eu precisava saber em vinte segundos se ele conseguia lidar com volume de dados. Reescrevemos junto: três frases, números concretos, contexto da ferramenta. O resultado foi que ele foi chamado para entrevista na semana seguinte. A versão anterior tinha sido arquivada.
O método que funciona
Para descrever atividades desenvolvidas no currículo, você precisa seguir uma estrutura simples. Cada item deve ter três elementos: ação, contexto e resultado. Não na ordem que eu falei. Na ordem que fizer sentido para quem lê. Comece pelo resultado. Depois o contexto. Por último a ação. Isso quebra o padrão que todo mundo usa e prende a atenção. O recrutador já leu "responsável por..." mil vezes. Começar com número ou feito específico é diferente.
Exemplo real. Vou usar algo genérico mesmo, porque cada área é diferente. Alguém que trabalhou com vendas não escreve "fechei contratos". Escreve "fechei 47 contratos no trimestre, sendo 12 na primeira semana". Não escreve "atuei na gestão de equipe". Escreve "treinei 8 novos vendedores, dos quais 6 atingiram a meta no primeiro mês". A diferença entre uma descrição rasa e uma que chama atenção está nos verbos. Evite "participei", "colaborei", "auxiliei". São palavras que diluem responsabilidade. Use "liderou", "criou", "implementou", "reduziu", "aumentou". Verbos de ação direta. Verbos que mostram dono do feito.
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Pegadinha que ninguém conta
A maioria dos candidatos não sabe quantas linhas escrever. A regra prática é: máximo oito itens por cargo, máximo seis linhas por item. Mais do que isso é excesso. Menos do que isso é omisão. Se você tem apenas três coisas relevantes para dizer sobre um emprego de dois anos, talvez seja sinal de que você estava lá como figura decorativa, não como profissional ativo. Outra pegadinha. Números precisam ser críveis. Se você diz que "aumentou as vendas em 300%", o recrutador já desconfia. Não existe aumento assim sem contexto. Um aumento de 15% a 20% soa muito mais realista, mesmo que você tenha feito muito mais do que isso. O exagero numérico mata mais currículos do que a falta de informação.
O que não fazer de jeito nenhum
Não use jargões de empresa. "Trabalhei com stakeholders, sinergia e deliverables" é inútil fora do ambiente corporativo. Quem lê seu currículo pode não estar naquela indústria. Escreva como se estivesse explicando o que fazia para alguém de outra área. Não descreva tarefas operacionais que não agregam valor. Se você digitava relatórios, isso não precisa estar no currículo. O fato de você saber usar Excel já é suficiente. O que importa é o que você construiu com esses relatórios, não o ato de digitar.
Especificidade demais também é problema. Descrever que você "fazia café para a equipe diretiva" mostra falta de critério no que é relevante. Não descreva anything que não tenha impacto mensurável no negócio.
A versão final
Depois de escrever tudo, leia em voz alta. Se alguma frase soar repetitiva, encurte. Se algum parágrafo tiver mais de duas orações encadeadas com "e" ou "com", divida em duas frases separadas. A leitura deve fluir sem travamentos. Coloque o currículo num formato que preserve a formatação. PDF é o padrão. Nunca envie em Word, porque a formatação pode quebrar em qualquer sistema. Se precisar enviar em Word, envie sempre uma cópia em PDF junto.
O resultado é um currículo que se lê rápido, mostra o que você fez sem enrolação, e dá ao recrutador tudo o que ele precisa em menos de um minuto. Se ele parar pra ler mais, você já ganhou.