A estrutura que funciona na prática
A maioria das pessoas coloca as experiências em ordem cronológica inversa e espera que o mérito do cargo fale por si. Não funciona assim. Um recrutador gasta cerca de sete segundos numa leitura inicial antes de decidir se continua ou avança. Se a experiência não estiver organizada para entregar informação útil nesse intervalo, ela simplesmente desaparece. O formato que eu uso costuma seguir esta lógica: função e empresa na primeira linha, datas logo abaixo entre parênteses, e três a cinco bullet points com resultados quantificáveis. Nada de parágrafos longos. Nada de listar responsabilidades genéricas como "responsável por vendas". As empresas já sabem o que um comercial faz. Elas querem saber quanto vendeu e em quanto tempo.
Como colocar a experiência no currículo sem cometer erros que custam entrevistas
Eu tive um caso específico que nunca mais esqueci. Havia um candidato com quatro anos de experiência em logística que me enviou o currículo com uma linha por cargo e uma frase de duas linhas descrevendo cada um. Nada de números, nada de contexto, só verbos no passado. Eu devolvi sem marcar. Aí ele me procurou e perguntou o que estava errado. Eu expliquei. Duas semanas depois ele mandou uma versão nova com métricas — redução de 18% no tempo de expedição, economia de R$ 47 mil em contratos de fretes, gestão de uma equipe de 23 pessoas. Ele conseguiu três entrevistas na mesma semana. O conteúdo era o mesmo. A apresentação é que mudou. O erro mais comum que eu vejo é a confusão entre dever ser e ter conseguido. Descrever o que o cargo pedia é fácil e inútil. O que diferencia um currículo memorável de um esquecível é a diferença entre o esperado e o realizado. Se a meta era entregar 100 pedidos por dia e você entregava 132, isso é informação. Se você apenas "atendia pedidos", isso não é informação, é preenchimento de espaço.
Outra coisa que poucos entendem: a data de término importa tanto quanto a de início. Um emprego que durou três meses num período recente de employment chama atenção negativa. Se você teve um contrato temporário de curta duração, coloque "mar. a jul. 2024" ao invés de deixar aberto. Recrutadores gostam de terminar a data. Abre-ended dates geram suspeita de desemprego disfarçado.
A sequência de preenchimento
Comece pela experiência mais recente. Preencha cargo, empresa, cidade e período. Em seguida, escreva os bullet points usando a estrutura de ação mais resultado. Verbo no passado, número quando possível, contexto quando necessário. Exemplo prático em vez de explicação teórica: em vez de escrever "Gerenciava redes sociais da empresa", escreva "Cresci o engajamento orgânico de 2 mil para 18 mil seguidores em seis meses, gerando 34 leads qualificados por mês via LinkedIn". A segunda versão entrega informação acionável. A primeira entrega palavras bonitas.
Se você tem pouca experiência formal, use projetos acadêmicos, voluntariado, freelances ou iniciativas pessoais. Eu já vi candidatos com apenas seis meses de mercado ocuparem três quartos do currículo com trabalhos acadêmicos relevantes. Quando bem descritos, esses projetos compensam a falta de tempo de casa. O segredo é tratá-los com a mesma rigidez que trataria uma posição formal: nome do projeto, instituição ou cliente, período, e resultados mensuráveis. Existem ferramentas úteis aqui. Eu costumo usar o formato padrão da Abnt para quem entra em concursos públicos, mas para vagas privadas o formato livre com seções claras performa melhor. Plataformas como o Currículo.com.br e o CVFactory oferecem templates, mas eu recomendo montar manualmente no Google Docs ou Word. Template pronto limita a flexibilidade quando o recrutador pede algo específico.
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O que não colocar e por quê
Foto só se a vaga pedir explicitamente. No Brasil, algumas áreas ainda pedem, mas na maioria dos setores tecnológicos e multinacionais foto gera viés inconsciente e pode afastar candidatos. Se a vaga não solicitar, não coloque. Formação acadêmica vai depois da experiência, não antes. Se você tem mais de um ano de experiência relevante, a formação perde prioridade. Endereço completo também é desnecessário. Cidade e estado bastam. Dados pessoais como CPF, estado civil e filiação política são obsoletos e podem gerar discriminação. Um detalhe técnico que muita gente ignora: a ordem dos campos dentro de cada entrada de experiência importa. Cargo primeiro, depois empresa, depois período. O olho do recrutador percorre da esquerda para a direita e de cima para baixo. Se você inverter a ordem, ele gasta mais tempo decodificando e tende a pular a linha inteira.
A formatação visual também influencia. Fonte legível, tamanho 10 a 12 para corpo do texto, espaçamento 1,0 ou 1,15. Margens de 2 cm em todos os lados. Nada de cores vibrantes ou fundos escuros. O PDF deve ser exportado como texto selecionável, não como imagem. Recrutadores usam ATS (Applicant Tracking System) que não lêem PDFs baseados em imagem. Um currículo bonito mas ilegível para o sistema é um currículo descartado automaticamente.
Quando o método falha
Este formato depende de dados. Se você trabalhou em ambientes onde métricas não eram coletadas — o que é comum em pequenas empresas familiares sem controle de desempenho —, a construção dos bullet points fica mais difícil. A solução é estimativa razoável com base em observação. Se você atendia em média 15 clientes por turno e o volume usual era 10, escreva "atendimento acima da média em 50%". É honesto e ainda assim informativo. Chutar números sem fundamento é pior do que não ter números. Outro cenário onde este método falha é para cargos criativos ou de design. Arquitetos, designers gráficos e ilustradores muitas vezes precisam de portfólio associado. O currículo nesses casos é apenas uma introdução. Coloque um link para o portfólio na seção de contato e mantenha o currículo enxuto. Mais de duas páginas nessa área parece desespero por conteúdo.
Também existe o limite do tempo. Um currículo muito extenso perde eficácia. Doze anos de experiência cabem numa página. Mais do que isso, use uma segunda página apenas se o conteúdo for diretamente relevante. Experiência como garçom em 2015 não ajuda um engenheiro de software sênior em 2025. Corte. Não tenha pena do passado.
Resumo rápido do processo
Escolha um template limpo no Google Docs. Preencha experiência mais recente primeiro. Cada entrada segue: cargo, empresa, cidade e período. Bullet points com ação mais resultado. Máximo cinco itens por cargo. Formatação em PDF texto. Sem foto, sem dados desnecessários, sem métricas inventadas. Revise duas vezes antes de enviar. Uma terceira revisão para ortografia. Se tiver como, peça para alguém ler. Um olhar externo pega erros que o seu cérebro ignora por familiaridade.