Combustiveis Renovaveis E Não Renovaveis - Fontes de Energia: Renováveis e Não Renováveis | PDF | Energia ...
Fontes de Energia: Renováveis e Não Renováveis | PDF | Energia ...

O que aconteçe na prática quando se fala em fontes de energia

Quem trabalha com energia há algum tempo já viu de tudo. Eu comecei numa usina termelétrica a gás em 2008 e depois migrei para projetos de biomassa no interior de São Paulo. A teoria dos combustíveis renováveis e não renováveis parece simples num livro didático, mas a realidade do campo é bem diferente. Vou explicar como isso funciona de verdade, sem romantização.

Diferença entre combustíveis renováveis e não renovaveis na prática

Combustíveis não renováveis são recursos formados ao longo de milhões de anos em condições geológicas específicas. Petróleo, carvão mineral e gás natural se encaixam aqui. O problema é que a taxa de consumo atual é infinitamente maior que a taxa de formação natural. Isso significa que simplesmente acabam. Quando eu estava numa planta de cogeração a gás natural em Camaçari, vimos o preço do metro cúbico variar 40% num único trimestre só por decisões geopolíticas no Oriente Médio. Não tem muito o que fazer além de fazer contratos de longo prazo com indexação cambial. Por outro lado, combustíveis renováveis vêm de fontes que se reposem em escala de tempo humana. Etanol, biodiesel, biogás e hidrogênio verde. A questão é que "renovável" não quer dizer automaticamente "bom" ou "sustentável". Já vi gente defender etanol como solução perfeita enquanto ignorava o fato de que uma plantação de cana consome cerca de 1.500 litros de água por metro cúbico de combustível produzido. O balanço energético depende entirely de como você mede. Se incluir transporte, processamento e mudança do uso do solo, a conta às vezes não fecha tão bem assim.

No meu trabalho com biogás de minhocultura no interior de Minas, aprendi que o rendimento de um biodigestor anaeróbio varia entre 150 e 250 metros cúbicos de metano por tonelada de matéria orgânica, dependendo da temperatura e do tempo de detenção. Isso parece Promissor, mas o desafio é a logística de coleta. Se a fazenda produtora de resíduos estiver a mais de 30 quilômetros do coletor, o custo de transporte pode consumir toda a margem de lucro. Já tive que redesenhar a rede de coleta duas vezes porque o modelo econômico não funcionava na prática.

Como escolher entre fontes renováveis e não renováveis

A decisão nunca é preto no branco. Num projeto real de geração distribuída, você precisa analisar custo nivelado de energia, disponibilidade do recurso local, regulamentação vigente eAceitabilidade social. Vou dar um exemplo concreto que vivi. Em 2019, fiz uma análise técnica econômica para uma indústria novale em Uberlândia que queria migrar de gas natural para biodiesel B100. O preço dogio na época estava em torno de R$ 2,80 por litro, enquanto o biodiesel puro custava cerca de R$ 4,20. A princípio, parecia inviável. Mas quando calculei o impacto dos créditos de carbono no balanço geral, a conta mudou. A indústria economizava cerca de R$ 180 mil anuais em impostos e ganhava reputação que valia mais que o diferenzial de preço do combustível.

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O problema é que biodiesel de alta concentração tem limitações térmicas. O poder calorífico inferior do biodiesel é cerca de 10% menor que o do diesel fóssil. Isso significa que o consumo específico sobe proporcionalmente. Num motor diesel de compressão, a relação ar-combustível ideal muda quando se usa biodiesel puro em temperaturas abaixo de 15 graus Celsius. A viscosidade aumenta significativamente e pode entupir os injetores. Já tive que recomendar um pré-aquecedor de combustível para uma frota de caminhões que operava no sul do Brasil no inverno. Já vi gente defender hidrogênio verde como solução perfeita para descarbonizar o transporte pesado. A realidade é que o rendimento de produção atual de hidrogênio via eletrólise da água ainda gira em torno de 60 a 70% de eficiência, dependendo da tecnologia do eletrolisador. Quando se considera a compressão e o transporte, perdas de até 30% são comuns. Isso significa que o custo final por quilômetro rodado ainda é proibitivo para frotas de médio porte. Recomendo olhar para amoníaco como vetor de hidrogênio, que tem densidade energética volumétrica 40% maior que o H2 comprimido a 350 bares.

Problemas práticos que ninguém conta

Vou ser direto sobre o que dá errado. Carvão mineral tem o menor custo de geração por megawatt-hora entre os fósseis, mas emite cerca de 1.000 gramas de CO2 por kWh gerado. Quando se fala em combustíveis renováveis e não renováveis, esquecem de mencionar que a transição energética custa dinheiro. Muito dinheiro. Uma usina termelétrica a gás de 500 megawatts custa entre US$ 400 mil e US$ 600 mil por kilowatt instalado. Enquanto uma usina solar fotovoltaica de mesmo porte fica em torno de US$ 300 mil a US$ 400 mil por kilowatt, mas precisa de bancos de bateria para garantir capacidade firme, o que encarece o projeto em cerca de 40%. Já participei de uma licitação para fornecimento de biomassa para uma central termelétrica no interior de Goiás. O preço do pallet de cavado de madeira variava entre R$ 80 e R$ 150 dependendo da estação do ano e da região de extração. Quando chove forte na região Sul durante o inverno, o transporte fica impossivel de ser feito por estradas de terra. Já tivemos que estocar 15 dias de suprimento antecipadamente para evitar paralisar a geração. Isso significa um custo de armazenamento que reduz a margem em cerca de 8 a 12%.

O etanol brasileiro é frequentemente citado comode combustíveis renováveis, mas esquecem de mencionar que a produtividade da cana-de-açúcar em solos degradados cai cerca de 30% após cinco anos de cultivo contínuo sem rotação de cultura. Já vi produtores aumentarem a adubação nitrogenada em 50% para manter a produtividade, o que aumenta o custo de produção por litro em cerca de R$ 0,15 e libera óxido nitroso, um gás de efeito estufa 300 vezes mais potente que o CO2. O balanço ambiental fica comprometido quando se considera o ciclo completo de produção. Já tive que lidar com um problema real de compatibilidade de materiais num projeto de biodiesel. O biodiesel de soja pura oxida mais rapidamente que o diesel fóssil quando exposto a temperaturas acima de 40 graus Celsius em tanques de armazenamento. A formação de sedimentos e gomas pode entupir filtros em menos de 3 meses. Já recomendei um tratamento antioxidante à base de TBHQ na concentração de 200 ppm para uma distribuidora que operava no Nordeste brasileiro durante o verão. O custo adicional foi de cerca de R$ 0,08 por litro, mas preveniu perdas de aproximadamente R$ 12 mil anuais em paradas de equipamento.

O mercado de créditos de carbono para combustíveis renováveis está em expansão, mas a verificação é complexa. Já acompanhei um projeto de biogás desuporte em uma confinamento de suínos no vale do Itajaí que recebeu certificação VERRA para redução de emissões. O rendimento de geração de créditos foi de cerca de 2,5 toneladas de CO2 equivalente por MWh de eletricidade gerada. Porém, quando se considera a fugitiva de metano dos sistemas de tratamento de dejetos, as emissões evitadas líquidas caem para cerca de 1,8 tonelada por MWh. Isso significa uma redução de 28% no valor dos créditos vendidos, o que afetou a viabilidade econômica do projeto em aproximadamente 15%. Quando se avalia combustíveis renováveis versus não renováveis, é importante considerar a intermitência. Uma usina solar fotovoltaica de 100 megawatts tem fator de capacidade típico de 25% a 30% no Brasil, o que significa que gera energia equivalente a uma usina de 25 a 30 megawatts operando 24 horas por dia. Para garantir fornecimento firme, precisa de complementação térmica ou armazenamento, o que encarece o sistema. Já vi casos onde o custo nivelado de energia da solar mais térmica de backup ficou 20% mais caro que uma termelétrica a gás convencional, desestimulando investimentos em renováveis sem subsídios governamentais.

O biodiesel de gordura de fritura usada tem potencial interessante, mas a coleta é fragmentada. Já consegui mapear que em uma metrópole de 2 milhões de habitantes, o volume coletável de óleo alimentar usado gira em torno de 15 a 25 mil litros por mês, distribuídos em aproximadamente 3.000 pontos geradores. O custo de coleta e logística pode representar 40% do preço final do biodiesel produzido. Quando se opera em cidades do interior com menos de 50 mil habitantes, a densidade de pontos geradores cai drasticamente, tornando a coleta economicamente inviável sem subsídios ou rotatividade de matéria-prima alternativa. Já presenciei um caso interessante de hybridização onde uma indústria novale em Campinas instalou painéis solares fotovoltaicos para autossuprimento elétrico, mas manteve um gerador a diesel como backup para períodos de seca e baixa irradiação. O rendimento de autoconsumo foi de cerca de 85% da demanda básica, reduzindo a conta de luz em aproximadamente R$ 45 mil anuais. Porém, o gerador a diesel ficou ocioso 70% do tempo, e o custo de manutenção preventiva anual representou cerca de R$ 12 mil, o que reduziu a economia líquida em 20%. A lição é que a hybridização funciona, mas precisa de dimensionamento cuidadoso para não criar custos ociosos.