O que todo mundo sabe, mas ninguém explica direito
Casa é substantivo comum. Isso está em todo manual de gramática que você pegar. O problema é que a teoria na maioria das vezes para por aí e quando você realmente precisa aplicar o conceito — seja corrigindo um texto, ensinando alguém ou passando em uma prova — os detalhes começam a aparecer de formas que ninguém avisa. Eu comecei a levar isso a sério quando tive que revisar centenas de descrições imobiliárias. O erro mais recorrente não era gramatical no sentido tradicional, mas sim o uso indevido da maiúscula em "Casa" como se fosse nome próprio, o que simplesmente não existe nessa categoria.
Por que casa é substantivo comum
Substantivo comum é toda palavra que nomeia seres, objetos ou conceitos de forma genérica, sem identificar um exemplar específico. Casa se encaixa perfeitamente nessa definição. Ela não distingue uma residência de outra. Se eu digo "comprei uma casa", estou me referindo a qualquer casa, não a uma em particular. Isso é exatamente o que diferencia o substantivo comum do substantivo próprio, que leva letra maiúscula e identifica individualmente. O que as pessoas costumam confundir aqui é a questão da capitalização. Em português, substantivos comuns nunca recebem letra maiúscula inicial, a menos que estejam no início de uma frase. Já vi muita gente escrever "Rua Casa Forte" achando que "Casa" ali seria um substantivo comum com maiúscula por influência do inglês, onde isso acontece com frequência. Não acontece. Nomes de ruas, bairros, praças — tudo isso é substantivo próprio quando integralizado num topônimo.
Outro ponto que gera dúvidas é o que eu chamo de "substantivação oculta". Às vezes "casa" funciona quase como pronome, num contexto como "voltei para casa". Aqui ela ainda é substantivo comum, mas está em sentido figurado de lar, de referência afetiva, não do edifício em si. Isso não muda a classificação gramatical, só o valor semântico. A palavra continua sendo um substantivo comum, mas o falante carrega um significado adicional que a gramática normativa não costuma problematizar.
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Como aplicar isso na prática sem errar
O teste mais direto é a substituição. Se você pode colocar um artigo indeterminado antes — "uma casa", "alguma casa" — e a frase continua gramatical, o termo está funcionando como substantivo comum. Se tentar usar um artigo definido como "o" e o sentido mudar completamente, ainda é comum, mas o contexto é que está especificando. Nada de maiúscula. Um problema real que eu encontrei foi ao revisar um contrato de locação onde o locador escrevia "a Casa ficará sob responsabilidade do inquilino" com C maiúscula. Isso é incompatível com a norma padrão. A correção foi simplesmente minúscula: "a casa ficará...". Não há argumento legitimador para essa maiúscula nesse contexto. O contrato não estava batizando a residência, apenas se referindo a ela genericamente dentro das cláusulas.
Se você ensina isso para alunos, uma técnica que funciona é pedir para eles trocarem "casa" por sinônimos genéricos como "residência", "imóvel", "edição". Todos são substantivos comuns. Isso quebra a intuição errada de que "casa" seria especial por ser uma palavra cotidiana.
Limitações e casos onde a coisa complica
A classificação de "casa" como substantivo comum é sólida em 95% dos usos. Os 5% problemáticos acontecem quando ela entra em compostos ou expressões fixas. "Casa da moeda", "Casa Branca", "Casa Grécia" — nesses casos, o conjunto funciona como substantivo próprio, mas a palavra isolada "casa" ainda permanece como componente substantivo comum que se combina com outros termos para formar um nome próprio. O risco é o usuário identificar apenas a palavra "casa" dentro desse composto e achar que ela se tornou própria. Não se tornou. Ela é parte de um nome próprio, mas continua sendo, em si, um substantivo comum. Essa distinção entre parte e todo é onde a maioria erra.
Não existe atalho milagroso para fixar isso. O que funciona é exposição constante a textos bem revisados. Quanto mais você lê material de qualidade, mais a norma padrão se torna intuitiva e menos você precisa recorrer a regras explícitas.