A realidade por trás do carvão
A pergunta carvão é renovável ou não renovável tem uma resposta direta, mas o contexto é onde as coisas ficam complicadas. O carvão mineral, aquele que você vê sendo usado em termelétricas e siderúrgicas, é não renovável. Formou-se ao longo de milhões de anos a partir de matéria orgânica soterrada, comprimida e submetida a calor e pressão em condições geológicas específicas. A escala de formação é tão lenta que, do ponto de vista prático, equivale a zero quando comparada ao ritmo de consumo humano.
Carvão é renovável ou não renovável: o que a prática mostra
Aqui está algo que os manuais nem sempre deixam claro. Existe confusão proposital quando se fala em "carvão". O carvão vegetal, usado em churrascos e em alguns processos industriais na América Latina, vem de árvores. Árvores podem ser plantadas de novo. Então, tecnicamente, o carvão vegetal pode ser produzido de forma renovável, desde que o manejo florestal seja feito corretamente. O problema é que na prática raramente é o que acontece. Já trabalei em uma usina termelétrica no interior de São Paulo e vi de perto como a cadeia de suprimento de carvão mineral funciona. A coisa mais subestimada não é o combustível em si, mas a logística de moagem. O carvão precisa ser transformado em pó com partículas entre 70 e 80% abaixo de 75 mícrons para combustão eficiente. Quando o moinho de bolas entra com umidade alta por causa de chuva contínua, a eficiência cai drasticamente e você passa a queimar mais carbore com menor rendimento térmico. Minha solução foi ajustar a taxa de alimentação do moinho e introduzir ar quente secundário na linha de transporte, mantendo a umidade do carvão abaixo de 15%. Isso estabilizou a combustão sem precisar desligar a unidade.
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O carvão mineral tem outros problemas que vão além da questão renovabilidade. A queima libera entre 820 e 3600 gramas de CO2 por megawatt-hora gerado, dependendo do tipo de carvão. Antracito é mais limpo. Bituminoso e subbituminoso são muito piores. Cinzas ácidas contaminam solo e água se o resíduo não for acondicionado em barragens adequadas, o que infelizmente ainda ocorre com frequência em regiões mineradoras. Existe também o carvão de origem biogénica, produzido a partir de biomassa através de pirólise controlada. Isso é renovável, mas o rendimento energético por hectare é muito inferior ao de outras fontes. Em escala industrial, não compete com energia eólica ou solar em termos de custo por megawatt-hora.
Se a questão é puramente se o carvão mineral é renovável, a resposta é não. Mas a discussão útil não é essa. A discussão relevante é qual tipo de carvão você está analisando, qual a procedência, qual o teor de cinzas e enxofre, e qual o destino energético que se pretende dar. Um relatório de especificação mal feito pode levar a escolhas erradas que custam caro no operacional.