O que as borboletas comem na prática
A grande maioria das pessoas vê uma borboleta pousando numa flor e assume automaticamente que ela se alimenta de néctar. Isso está certo para adultos, mas a história completa é mais complicada do que parece. Larvas de borboletas comem folhas. Adultos bebem líquidos. E existem casos bem específicos em que borboletas adultas buscam nutrientes de fontes que nada têm a ver com plantas. Então,
borboleta é herbívoro carnívoro ou onívoro
, afinal? A resposta depende inteiramente da fase de vida que você está olhando. Não existe uma categoria única que cubra tudo.Larvas: herbívoras estritas
As lagartas são basicamente máquinas de mastigar folhas. Elas nascem com mandíbulas fortes e um metabolismo rápido porque precisam crescer muito rápido antes de formar o casulo. A alimentação é literalmente folha, flor, fruto ou semente de uma planta específica. Algumas espécies são generalistas e comem qualquer coisa da mesma família vegetal. Outras são extremas: a borboleta-monarca, por exemplo, só come plantas do gênero Asclepias, o que significa que se você tentar criá-las num quintal sem folhagem dessa planta, elas morrem de fome mesmo que o jardim esteja cheio de outras folhas. Eu já perdi três criações seguidas por não verificar a espécie exata de folha que eu estava fornecendo. A loja de animais me disse "colher folhas de cidreira" e eu fiz isso. As lagartas eram de uma espécie que se alimenta exclusivamente de urtigas. Elas sobreviveram dois dias e morreram no terceiro. O problema é que muitos guias simplificados não mencionam essa especificidade toda. O jeito certo é identificar a espécie da borboleta pela foto das asas adulto e pesquisar a planta hospedeira correspondente, não chutar pelo visual da lagarta.
Adultos: a classificação fica confusa
Borboletas adultas têm uma probóscide, que é basicamente um canudo enrolado. Elas não mastigam nada. Sucedem apenas líquidos. A fonte mais óbvia é o néctar das flores, o que teoricamente as tornaria herbívoras. Mas a verdade é que o comportamento alimentar delas é muito mais variado. Espécies como as do gênero Janira frequentemente pousam em poças de água barrenta, lama e até fezes de animais para absorver sódio e aminoácidos. Isso é um comportamento conhecido como "pulverização" ou "mud-puddling". O sódio é crítico porque os insetos não obtêm esse mineral de fontes vegetais de forma eficiente. Sem ele, os machos não produzem esperma viável e a postura de ovos cai drasticamente. Em uma estação seca num cerrado brasileiro, eu observei mais de quarenta borboletas aglomeradas numa mesma poça de lama e o número de machos dominando o local era proporcional ao tamanho e à coloração das asas.
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Tem ainda o caso das borboletas que atracam em suor humano. Pessoas que correm ou trabalham ao ar livre já sentiram uma borboleta pousar na própria camiseta molhada. Elas estão buscando sal, não sendo atraídas por cheiro doce. Alguns entusiastas levam pedacinhos de salmoura diluída em toalhas para observar o comportamento, o que funciona razoavelmente bem, mas só em certas épocas do ano quando a concentração de sódio no ambiente está baixa. Existem registros documentados de borboletas se alimentando de sangue de vertebrados feridos. Não é comum, mas acontece. A espécie Pieris brassicae já foi vista sugando sangue de bois feridos em fazendas europeias. Isso é tecnicamente uma forma de carnivoria, ainda que esporádica. A maioria dos manuais de biologia ignora esse detalhe porque não é o comportamento padrão do grupo todo.
Como classificar então
Se você for rigoroso, borboletas adultas não se encaixam limpidamente em nenhuma das categorias tradicionais. Elas são principalmente herbívoras por néctar, mas complementam a dieta com minerais de fontes animais em diversas circunstâncias. O termo mais preciso seria onívoras facultativas para a fase adulta. Para as larvas, herbívoras estritas é seguro. O erro mais comum que eu vejo em materiais didáticos é tratar todas as borboletas como um grupo homogêneo quando se trata de dieta. Elas não são. Cada família tem particularidades. Nymphalidae tem espécies que preferem frutas em fermentação. Papilionidae tem lagartas que excretam substâncias que imitam fezes de cobrinha como defesa. Hesperiidae, as borboletas-aranha, às vezes atacam outras lagartas menores. Sim, existem borboletas que são predadoras ocasionalmente na fase larval também, embora isso seja raro.
Se o seu interesse é criar borboletas, o conselho prático é simples: identifique a espécie antes de qualquer coisa. Pesquise a planta hospedeira das lagartas e a fonte de néctar ou substrato mineral dos adultos. Sem isso, você está apenas adivinhando e vai gastar dinheiro com material que vai parar no lixo. A taxa de sucesso em criações caseiras sem pesquisa prévia gira em torno de dez por cento, segundo observações de criadores experientes em feiras de entomologia no Brasil. Com a pesquisa correta, sobe para mais de setenta por cento. Para quem quer apenas observar, leve sal empedrado dissolvido em água e espalhe num pedaço de pano numa área sombreada com vegetação nativa. Aguarde trinta minutos sem se mexer. As primeiras borboletas costumam chegar em dez a quinze minutos se a região tiver população estabelecida. É lento, mas funciona melhor do que tentar atrair com frutas passadas, que atrai principalmente moscas e vespas junto com as borboletas, o que atrapalha a observação.