O que acontece quando o coração dispara devagar
Muita gente acha que ter batimentos abaixo de 60 é automaticamente um problema. Na prática, isso raramente é verdade. Atletas, por exemplo, frequentemente ficam na casa dos 45 a 55 batimentos por minuto em repouso e não têm nada com o que se preocupar. O corpo deles se adaptou a um volume sistólico maior, então cada batida ejet mais sangue e o coração não precisa trabalhar tão rápido. Já vi casos de corredores de longa distância com frequência cardíaca em repouso em torno de 42 bpm que estavam perfeitamente assintomáticos e com ecocardiogramas normais.
Bratimentos abaixo de 60: quando procurar ajuda e como investigar
O diagnóstico real começa com um ECG de 12 derivações, mas o que a maioria das pessoas não sabe é que um ECG de repouso de 10 segundos pode perfeitamente perder uma bradicardia intermitente. Eu tive um paciente que só apresentava bloqueio AV de segundo grau tipo 2 durante exercícios moderados. O ECG de repouso estava absolutamente normal. A solução foi um Holter de 48 horas com registro de sintomas, e ainda assim levou três dias para capturar o evento. Se os sintomas forem esporádicos, um monitorador de eventos implantável por 30 dias é a opção que realmente funciona. A diferença entre sinus bradicardia fisiológica e bradicardia patológica não está no número em si. O sinoatrial node está funcionando bem nos dois casos. A questão é se o tecido cardíaco consegue manter a condução adequada até os ventrículos. Bloqueios de ramo, doença do nó sinusal e efeitos de medicamentos são as causas mais comuns de bradicardia sintomática. Betabloqueadores, antagonistas dos canais de cálcio não-dihidropiridínicos como verapamil e diltiazem, e digoxina podem todos baixar a frequência sinusal de forma significativa.
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Um detalhe que médicos generalistas frequentemente ignoram: a bradicardia noturna. Durante o sono, é normal o sistema parassimpático dominar e a frequência cair para 40-50 bpm em adultos saudáveis. O problema aparece quando há pausas superiores a 3 segundos ou quando o paciente acorda com tontura. Um polissonografia combinada com monitorização cardíaca pode distinguir isso de uma apneia obstrutiva grave, que por si só causa bradicardia repetitiva durante os eventos apneicos. Se você está lendo isso porque recebeu um resultado de Holter com bradicardia e não sabe o que fazer, o primeiro passo é entender se há sintomas correlatos. Tontura, síncope prévia, fadiga extrema e intolerância ao exercício são sinais de alerta. Presença desses sintomas com frequência ventricular média inferior a 40 bpm durante o dia geralmente indica necessidade de avaliação com cardiologista especializado em arritmias. A maioria dos casos assintomáticos em indivíduos jovens e fitness não requer intervenção.
O implante de marcapasso é o tratamento definitivo para bradicardia sintomática irreversível, mas existem limitações importantes. Marcapasos convencionais não previnem taquicardias supraventriculares e podem causar síndrome do marcapasso em alguns pacientes, com desconforto due à perda de sincronia atrioventricular. Opções mais recentes como dispositivos de ressincronização cardíaca ou ablação do nodo AV com implantação de marcapasso permanente são consideradas em casos selecionados de fibrilação atrial com bradicardia. Uma coisa que poucos contam: a bradicardia pode ser o único sinal de hipotireoidismo não diagnosticado. Testes de TSH livre e T4 livre devem fazer parte da investigação inicial de qualquer bradicardia não explicada. Tratar a tireoide resolve o problema em muitos casos sem necessidade de qualquer dispositivo. O mesmo vale para distúrbios eletrolíticos, especialmente hipercalemia moderada que altera a despolarização membranar dos cardiomiócitos.