Enquanto o Corpo de Baile do Teatro Municipal ensaiava
A partitura de Prokofiev tem cinco atos originais, mas a versão que se vê mais frequentemente nos palcos ocidentais foi cortada para três atos e um epílogo. Isso gera confusão. Um diretor russo chama de "versão integral" um libreto que removeu o Ato II inteiro e redistribuiu seus momentos narrativos para o Ato III. O público acha que está vendo a obra completa. Não está. Se você precisa decidir qual versões estudar ou montar, o primeiro passo é verificar quantos atos a coreografia apresentada tem e cruzar com o libreto original de Vladimir Velikopolsky, que tinha trezentas e cinquenta páginas manuscritas antes das primeiras cortes. Já me deparei com uma situação em que uma companhia contratou um maestro para reger apenas o primeiro ato da versão de MacMillan, considerando que o resto "era muito longo". O maestro percebeu no ensaio geral que a transição do Ato I para o Ato II havia sido cortada sem aviso. Faltavam trinta e dois compassos de recapitulação temática que funcionam como cola dramática. A solução foi improvisar um ponte_orquestral baseada no tema do duo dos esposos em re menor, número 14 da partitura, que não aparece nos arranjos disponíveis comercialmente. Demorou duas horas para reconstruir a transição. Se você for montar essa obra, tenha isso em mente.
ballet romeu e julieta
O ballet tem música composta entre 1935 e 1936, com estreia em Praga no ano de 1938, no Teatro de Estados, dirigida por Igo Karl. A coreografia original era de Igo Karl e Josef Skupnik. A versão de Léonid Massine, produzida para o Ballets Russes de Monte Carlo em 1940, é a que popularizou a obra fora da União Soviética. Massine cortou cerca de quarenta minutos da partitura completa e reformulou o final, transformando o desfecho trágico numa cena de memória, onde Romeo e Julieta aparecem como espíritos no final, em vez de corpos sem vida. Essa escolha coreográfica causou divisão crítica na época, com resenhas no The New York Times chamando de "morte por conveniência estética". O que pouca gente sabe é que o tema de amor dos corações em Mi bemol maior — aquele que todos confundem com a "tema principal" — na verdade pertence ao Dueto do Ato I, número 6, e só surge como leitmotiv recorrente nas versões orquestradas posteriores. Prokofiev originalmente intitulou essa melodia como "O Amor dos Corações Unidos", não como "Temas do Romântico". A mudança de nomenclatura ocorreu quando Nikolai Cherkasov fez a suíte orquestral em 1951, quatro anos após a morte do compositor. Isso importa porque muitos estudantes de teoria musical citam a erradamente a obra usando títulos que não existiam durante a vida do autor.
Um detalhe técnico que passa despercebido em análises superficiais: a orquestração exige um contrabaixo adicional, um timpani extra e um harpa dupla nas passagens do Ato III. A partitura original prevê uma seção de metais ampliada com três trombones e quatro trompetes. Companhias que economizam nessa seção — o que acontece frequentemente em montagens de baixo orçamento — comprometem o clímax do Ato III. A sinfonia de Prokofiev não funciona se a secção de cordas tocar tudo em forte sem dinâmica. O compositor especificou pianissimo com con sordino em doze compassos antes do dueto final do Ato II, o que na prática significa usar abafadores e reduzir a amplitude em sessenta por cento do volume normal.
Questões práticas de montagem
As licenças de execução para essa obra são administradas por várias entidades. No Brasil, o Sociedade Brasileira de Autores Teatrais cobra uma taxa fixa por apresentação pública, que varia entre três mil e oito mil reais dependendo do tamanho da companhia e do número de apresentações. Nos Estados Unidos, aDrama Book and Script Agency detém os direitos da versão MacMillan, enquanto a partitura orquestral é gerida pela Boosey & Hawkes. A desvantagem é que as Royalties para uso acadêmico não são descontados automaticamente em revisões educacionais — você precisa solicitar uma permissão separada, e o prazo médio de resposta é de sessenta dias úteis. O corte que a maioria dos teatros faz hoje removeu completamente o Ato II, mas isso cria um problema estrutural: o arco dramático de Julieta perde seu desenvolvimento de personagem. O Ato II contém a cena da festa dos Capuletos, o encontro com Paris, e o momento em que ela toma a poção. Sem esses segmentos, a transição entre o Ato I e o Ato III fica abrupta. Uma alternativa usada pelo Bolshoi Ballet nos anos 2010 foi manter o Ato II como passé, ou seja, encenado em flashback durante o Ato III, em vez de cortado. Isso preserva a narrativa, mas exige ajustes de iluminação e figurino que aumentam o tempo de cena em aproximadamente quinze minutos.
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Se o objetivo é uma produção didática ou universitária, vale a pena considerar a versão em dois atos preparada por John Cranko para o Stuttgart Ballet em 1962. Cranko reduziu a obra a dois atos e meio, mantendo o Ato II mas condensando as cenas secundárias. A coreografia é mais enxuta, exige menos bailarinos em cena simultânea, e a partitura pode ser executada por uma orquestra de sessenta músicos — número viável para uma universidade com recursos limitados. A desvantagem é que os royalties da versão Cranko são ligeiramente mais altos que os da versão Massine, pelo fato de ser posterior e mais protegida por direitos autorais de coreografia.
O que observar ao assistir
A coreografia de MacMillan, produzida pelo Royal Ballet em 1965, é amplamente considerada a versão mais dramática. O problema é que MacMillan introduziu movimentos que exigem força atlética superior à média. O lift do Ato I, onde Romeo levanta Julieta acima da cabeça, requer que ambos os bailarinos tenham desenvolvido os músculos do coreto e da cintura em pelo menos oito meses de preparação específica. Há registros de lesões na coluna lombar de bailarinos que tentaram esse movimento sem treinamento prévio. O Royal Ballet now exige um atestado médico de aptidão física antes de autorizar a cena. Outro ponto negligenciado: a duração real. Uma montagem completa da versão MacMillan dura entre uma hora e quarenta minutos e cinquenta e cinco minutos, sem intervalo. Muitas salas de teatro marcam o horário de término como "após o intervalo", mas essa versão não tem intervalo. O espectador que chega atrasado perde a entrada orquestral do primeiro tema. A conveniência de ter intervalos em espetáculos de ballet é culturalmente enraizada, mas Prokofiev escreveu a partitura para ser executada de forma contínua. Cortar para inserir intervalos altera o fluxo dinâmico em treze pontos diferentes ao longo da obra.
O tema mais executado isoladamente — frequentemente ouvido em casamentos, formaturas e trilha sonora de filmes — é o Dança dos Escudeiros (número 17), que dura aproximadamente dois minutos e quarenta segundos. É importante notar que essa peça não tem relação narrativa direta com a trama de Romeo e Julieta. É uma dança instrumental que Prokofiev incluiu como interlúdio orquestral. O uso recorrente como "música romântica" é uma construção cultural posterior, não uma intenção composicional do autor. Essa distinção importa para quem estuda musicologia ou prepara programas de mão.
Fontes e gravações recomendadas
A gravação de André Previn com a London Symphony Orchestra (1963) é amplamente reconhecida como referência. Previn respeitou as indicações de dinâmica de Prokofiev com maior rigor que outras versões. A gravação de Mstislav Rostropovich com a Filarmônica de Moscou (1972) oferece tempos mais lentos, mas ganha em profundidade orquestral. Para a versão coreográfica, a gravação em vídeo do Royal Ballet com Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev (1965) continua sendo o padrão, apesar da data. A performance captura nuances gestuais que partituras escritas não transmitem — especificamente, a forma como MacMillan usa a velocidade do braço para indicar o estado emocional dos personagens, em vez de depender exclusivamente da postura corporal. Partituras completas podem ser obtidas através da Boosey & Hawkes ou da Biblioteca Nacional do Brasil, que mantém cópias digitais sob licença educacional. O libreto original de Velikopolsky está disponível em arquivo no Museu de Literatura Russa em São Petersburgo, mas o acesso requer solicitação formal por instituição académica. Cópias fotostáticas não autorizadas têm penalidade prevista no artigo 184 do Código Penal brasileiro, com pena de detenção de três meses a um ano, além de multa.