Balanço Hidrico Em Enfermagem - Balanço Hídrico em Enfermagem: entenda o que é e como fazer
Balanço Hídrico em Enfermagem: entenda o que é e como fazer

Balanço hídrico em enfermagem: o que funciona de verdade

Eu já vi enfermeiro calouro levar dois turnos para fechar o balanço de um paciente com dreno e cateter. A gente precisa ser prática sobre isso. Balanço hídrico nada mais é do que o registro sistemático de tudo que entra e tudo que sai do organismo do paciente num período determinado, geralmente 24 horas. O cálculo em si é simples: volume de entradas menos volume de saídas. O problema real é que os números que aparecem no papel raramente batem com a realidade clínica.

Como fazer balanço hídrico em enfermagem no dia a dia

A técnica básica é registrar tudo. Eu costumo levar uma prancheta pequena e anotar em tempo real, porque depois você esquece. Vou listar o que conta como entrada e o que conta como saída, com a parte que todo mundo erra destacada. Entradas:

Obviamente líquido oral — copo d'água, suco, chá. Isso você mede com copo medidor. O pessoal costuma achar que o paciente bebe "mais ou menos", mas aí já entra o erro. Se não tem copo medidor na cabeceira, peça. Muda o jogo. Veio intravenosa é a entrada mais crítica. Conta soro, medicação diluída em soro, medicação via pump. Aqui tem um detalhe que a maioria não considera: o volume de medicação misturada no diluente. Se você administra 40 miligramas de furosemida em 10 mililitros de salina, esses 10 mililitros entram no balanço. Já vi gente registrar só os mililitros do fármaco e deixar os 10 do diluente de fora.

Alimentação enteral também é entrada. Sonda nasogástrica, gastrostomia. Você precisa somar todo o volume infundido, incluindo a água do lavado. Se o paciente recebe nutricão contínua a 80 mililitros por hora durante 24 horas, são 1.920 mililitros de entrada. Cálculo que parece óbvio até alguém esquecer de registrar metade do turno. Lavados gástricos e irrigações vesicais com solução eletrolítica também contam como entrada quando há absorção. Isso é importante em pacientes com cateter vesical em drenagem contínua que recebem lavagem.

Saídas: Urina é a saída mais fácil de medir. Urina em coletor, urina espontânea, sonda vesical de demora. Anote todo mictório, toda troca de coletor, todo volume da bolsa. Se o paciente faz urometria horária, soma tudo no final do período.

Fezes é onde tem mais variação. Feze líquida ou pastosa mede-se por pesagem: peso do material menos peso do absorvente. Fezes brandas e normatizadas entram por estimativa qualificada — seco, pastoso, líquido. Aí entra o julgamento clínico, e é por isso que o balanço nunca é perfeito. Vômito, aspirado traqueal, dreno cirúrgico, drenos de cavidade. Tudo se mede. Dreno de tórax e dreno de abdominal merecem atenção especial porque o volume pode mudar rapidamente e refletir complicações.

A saída insensível é a que ninguém mede e todo mundo esquece. São os 600 a 800 mililitros que o corpo perde por pele e pulmão em condições normais. Em pacientes febris, essa perda aumenta em média 100 a 150 mililitros por hora de febre alta. Quando o paciente está com ventilador mecânico, a perda insensível via vias aéreas pode ser maior ainda. A literatura recomenda adicionar entre 600 e 1.000 mililitros ao cálculo de saídas nesse cenário. O ponto que ninguém ensina nos livros:

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Eu tive um paciente pós-cirúrgico cardíaco com dreno mediastinal e balão intra-aórtico. O balanço dava positivo em 300 mililitros no turno da manhã e negativo no da tarde. A enfermeira de plantão estava registrando o volume do dreno corretamente, mas esquecia que o volume de lavagem vesical para manter a sonda permeável entrava no balanço como entrada e não era considerada como saída. A correção foi simples: passei a subtrair o volume de lavagem que eu sabia que estava sendo retido parcialmente pela bexiga, ou então a registrar como saída quando o paciente miccionava naturalmente. Isso ajustou o balanço real em cerca de 400 mililitros por turno. Esse é o tipo de coisa que você aprende com a prática. O sistema de enfermagem muitas vezes não tem campo para lavagem de sonda ou para volume de irrigação, então você precisa anotar à mão e ajustar na planilha depois.

Erros comuns e como evitar

O erro mais frequente é confundir volume infundido com volume efetivamente administrado. Se um soro de 500 mililitros foi prescrito mas o paciente recebeu apenas 300 antes de trocar a medicação, só os 300 entram no balanço. Você precisa checar a bolsa no fim do turno e registrar o que sobrou. Outro erro clássico é não considerar a medicação endovenosa como volume. Cada ampola de antibiótico dissolvida em 10 mililitros de água para injetáveis entra no balanço. Se o paciente recebe quatro doses por dia, são 40 mililitros que somam. Não parece muito, mas em pacientes com restrição hídrica de 1.000 mililitros por dia, 40 mililitros é quase 5 por cento do total.

Também tem o erro de subestimar a saída insensível. Paciente com temperatura de 39 graus perdendo 100 mililitros por hora durante oito horas de febre gera 800 mililitros a mais de perda que precisam constar no balanço. Sem esse ajuste, o balanço fica positivamente superestimado em quase um litro. Um caso específico que eu lembro: paciente em UTI com sepse e restrição hídrita prescrita. O médico pediu balanço rigidamente negativo. A enfermeira estava anotando todas as entradas e saídas visíveis, mas não estava considerando a perda insensível aumentada pela ventilação mecânica com pressão positiva. O balanço registrado mostrava equilíbrio, mas o paciente estava subindo de peso e com sinais claros de sobrecarga. Ajustei adicionando 1.200 mililitros de perda insensível ao registro de saídas e o balanço real mostrou um positvo de 600 mililitros que precisava ser corrigido com diurético. Isso salvou o paciente de uma descompensação maior.

Formatos práticos para registrar

A ficha de balanço hídrico padrão da maioria dos hospitais funciona bem. Ela divide o dia em períodos de quatro ou seis horas, com colunas para entradas e saídas separadas por tipo. A gente preenche durante o turno e faz o fechamento no virada. Uma coisa que ajuda bastante é usar cores diferentes para cada tipo de entrada e saída. Azul para venoso, verde para oral, vermelho para drainagens, amarelo para enteris. Assim na hora de somar você não precisa ficar relendo cada linha. Economiza tempo e reduz erro de transcrição.

Para pacientes mais complexos, eu montava uma planilha complementar no Excel no computador do plantão. Colunas para entrada venosa, oral, enteral, saída urinária, fecal, drenos, perdas insensíveis estimadas, e colunas intermediárias por período. No final do dia, a planilha já somava automaticamente. Em turnos de 12 horas, isso reduzia o tempo de fechamento de cerca de 45 minutos para oito minutos, dependendo do número de entradas e saídas do paciente. O problema é que nem todos os hospitais permitem uso de planilhas pessoais durante plantão. Aí o jeito é a prancheta mesmo, com todos os dados anotados e conferidos no encerramento do turno com o plantão seguinte.

Quando o balanço hídrico não resolve sozinho

Existe um limite prático que todo profissional de enfermagem precisa conhecer. O balanço hídrico registra volumes, mas não informa o estado de hidratação tecidual do paciente. Um paciente pode ter balanço neutro em 24 horas e estar hipovolêmico porque as perdas insensíveis foram subestimadas. Outro pode ter balanço negativo mas ainda assim com edema por causa de hipóxia proteica ou insuficiência cardíaca. O balanço é uma ferramenta de vigilância, não um diagnóstico. Ele deve ser correlacionado com sinais clínicos: pressão arterial, frequência cardíaca, turgor cutâneo, mucosas, diurese horária, peso diário, gasometria quando aplicável. Sem essa correlação, o número no papel é apenas um número.

Em pacientes críticos, a monitorização invasiva da volemia ou a ecografia pulmonar e inferior da veia cava dão informações muito mais precisas do que o balanço hídrico isolado. Eu prefiro usar o balanço como referência inicial e confirmar com exame físico completo antes de ajustar terapias.

Resumo rápido para consulta durante plantão

Entre na dúvida, volte aqui. Anote tudo. Não confie na memória. Some entradas e saídas no fechamento de cada período. Considere sempre as perdas insensíveis, principalmente em pacientes febris ou ventilados. Corrija o balanço com o exame clínico. Se o número não bate com o que você vê no paciente, o erro provavelmente está no registro, não no paciente.