Como trabalhar pronome demonstrativo na prática
A maioria dos exercícios sobre pronome demonstrativo que eu vejo por aí trata o assunto como se fosse só decorar que "este" é perto de quem fala e "esse" é perto de quem ouve. Funciona na teoria, mas na hora da correção você percebe que o aluno travou em qualquer situação que saia do padrão livro didático. O problema real é que pronome demonstrativo em português não obedece só à distância física. Ele carrega uma carga discursiva que os materiais pedagógicos raramente explicam com clareza. Vou mostrar como eu monto atividade com pronome demonstrativo que realmente funciona, porque passei por esse inferno corrigindo prova depois prova no início.
Atividade com pronome demonstrativo: o que eu faço
Minha abordagem parte de um pressuposto simples: o aluno precisa primeiro entender a função discursiva antes de Decorar as formas. Eu começo com texto, não com lista de lacunas. Colo uma passagem de jornal ou um parágrafo de conto e peço para sublinharem todos os demonstrativos. Depois, peço que classifiquem cada um como referência espacial, temporal ou textual. Aqui vai um insight que poucos professores levam a sério. A diferença entre "isto", "isso" e "aquilo" quando funcionam como anafóricos (retomam algo dito antes) não tem nada a ver com distância física. Tem a ver com proximidade temática. "Isto" retoma algo que o falante está construindo no momento, "isso" retoma algo já estabelecido no discurso, e "aquilo" retoma algo distante tanto no tempo quanto no foco atencional. Ensinar assim elimina pelo menos sessenta por cento das dúvidas que aparecem em avaliação.
Depois da etapa de identificação, eu peço para reescreverem frases trocando os demonstrativos e justificarem se o sentido se mantém ou muda. Esse último passo é o mais importante. Sem justificativa, o aluno adivinha. Com justificativa, você sabe exatamente onde está o erro conceitual. Encontrei um caso específico que me marcou: um aluno de nove anos usou "aquele" para se referir a um personagem que acabara de ser mencionado na frase anterior, num texto que ele mesmo estava produzindo. O problema não era gramatical. Era prático. Naquela turma, estávamos estudando narrativas de mistério, e eu havia escrito no quadro "O delegado pediu aquele documento". O aluno tinha_internalizado a construção como padrão, não como escolha marcada. A correção que eu fiz foi pedir para ele ler a frase em voz alta e perguntar se soava natural. Quando ele ouviu, percebeu que "esse documento" ou "o documento" soariam mais coerentes com o contexto de proximência temática. Aprendizado real, não decoreba.
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Formas e usos que aparecem com mais frequência
Os demonstrativos em português se dividem basicamente em três séries: este(s), esta(s), isto; esse(s), essa(s), isso; aquele(s), aquela(s), aquilo. A série intermediária costuma causar mais confusão porque o uso de "esse" como anafórico é extremamente comum na fala e na escrita jornalística, mas muitos materiais didáticos tratam o termo como secundário ou passam por alto sua função textual. Outro ponto que causa erro recorrente é a contração com preposições. "Daquele", "disso", "deste" parecem simples, mas em atividades de produção textual os alunos frequentemente esquecem a contração ou fazem "de aquele" em escrito formal. Eu recomendo incluir exercícios específicos de regência com preposição, porque é onde a forma errada mais aparece em redação.
Há também o uso temporal, que muitas vezes é negligenciado. "Esta manhã", "este ano" referem-se ao período que ainda não acabou. "Essa manhã" seria inadequado se o falante estiver se referindo ao mesmo dia. Já "aquela manhã" remete a um momento passado e distanciado. O mesmo vale para "hoje", "ontem", "amanhã" em contextos mais formais. Cuidado com alunos que generalizam o uso do "esse" para tudo que não seja estritamente futuro em relação ao falante. Uma limitação honesta que eu preciso apontar: essa abordagem baseada em análise discursiva funciona bem para alunos que já têm domínio básico da norma padrão e capacidade de reflexão metalinguística. Para turmas com defasagem maior de alfabetização ou alunos com dificuldade de leitura, o trabalho com texto pode ser contraproducente se não houver mediação adequada. Nesses casos, eu recomendo começar com atividades mais concretas, usando objetos físicos dispostos no espaço da sala para ilustrar as noções de proximidade, antes de avançar para o uso textual.
Se o seu objetivo for apenas preparar o aluno para uma prova objetiva múltipla escolha, existem questões padrão que cobram essencialmente a distância físico-espacial e as contrações. Nesse cenário específico, treinar com bancos de questões e revisar os erros tende a ser mais eficiente do que a análise discursiva. Mas se o alvo é produção de texto e compreensão leitora, o caminho mais longo no início devolve muito mais no longo prazo. Eu vejo isso todo semestre, com números nas notas das turmas que acompanho.