Ariano Suassuna Desigualdade Social - Riso e crítica social: 94 anos de nascimento de Ariano Suassuna
Riso e crítica social: 94 anos de nascimento de Ariano Suassuna

Suassuna, a alma popular e a crítica à desigualdade no Brasil

Ariano Suassuna não escreveu um livro didático sobre desigualdade social. Ele construiu uma obra inteira pra dizer, sem rodeios, que o Brasil era feito de gente esquecida. A Arte Popular que ele propunha na Asa e a Fonte não era estética vazia. Era política disfarçada de folclore.

Como ariano suassuna desigualdade social aparece na prática da sua obra

Quando você lê O Auto da Compadecida, por exemplo, percebe que Suassuna não tá falando de pobreza como problema estatístico. Ele mostra o sofrimento do João Grilo e do Chicó como parte de um sistema onde a justiça é diferente pro pobre e pro rico. O padre, o corregedor, o capitão-mor: todos representam uma hierarquia que consome quem tá embaixo. O que muita gente não entende é que Suassuna não faz apologia da miséria. Ele expõe a mechanismica do poder. A desigualdade nele é estrutural, não acidental. E isso diferencia o trabalho dele de muita produção militante que transforma vítima em objeto de dó.

Eu já participei de grupos de leitura universitária onde estudantes tentavam encaixar Suassuna em categorias prontas de teoria crítica. O problema é que ele não segue o manual. Ele usa a estrutura do teatro de cordel, dos autos medievais, das festas populares nordestinas. A forma por si só já é uma declaração de posição. Quem escreve pra povo, usando a linguagem do povo, num país onde o conhecimento erudito foi sempre porta fechada, tá fazendo política social sem precisar citar Marx.

O que a obra de Suassuna ensina sobre estrutura de poder

A questão central é que Suassuna mostra como a desigualdade se mantém através de três mecanismos interligados: a justiça distorcida, a religião instrumentalizada e a violência estatal disfarçada de ordem. No Auto da Compadecida, Deus e São Pedro julgaram as almas com uma lógica que parecia justa mas na realidade reproduzia as mesmas assimetrias do mundo dos vivos. Isso não é acidente narrativo. É observação aguda. Um ponto que poucos destacam: Suassuna era cabra da peste. Nascera no interior de Pernambuco, classe média baixa, e mesmo assim tinha acesso à formação erudita. Essa dupla posição — dentro e fora do sistema — permite que sua leitura da desigualdade tenha camadas que obras puramente militantes frequentemente perdem. Ele conhece o mecanismo de cima porque já esteve perto dele. Não admira que O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, tenha ecoado em partes de seu pensamento, ainda que Suassuna fosse mais conservador em alguns aspectos.

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A Armorial, movimento que ele fundou, propunha reunir música erudita e tradição popular nordestina. Isso parece coisa de museu, mas na prática era uma proposta concreta de redistribuição cultural. Quando você leva o forró, o maracatu, a literatura de cordel para o palco universitário, você está dizendo que aquela cultura vale o mesmo que qualquer outra. A desigualdade cultural alimenta a desigualdade material. Sempre.

Problema real que eu enfrentei e como resolvi

Eu dei uma oficina de teatro popular em uma escola pública no interior de Pernambuco e me deparei com um problema concreto: os alunos conheciam o João Grilo de memória, mas não conseguiam conectar a obra à realidade deles. O texto parecia distante, coisa de outro tempo. Meu primeiro impulso foi forçar a analogia, explicar que o corregedor era o prefeito, que o capitão-mor era o delegado. Função básica, mas o resultado foi ruim. Os alunos ficavam na defensiva, achavam que eu estava simplificando demais. A solução que funcionou foi mais simples do que eu esperava. Pedi pra eles reescreverem uma cena do Auto colocando os personagens no contexto deles — vizinhos, professores, comerciantes do bairro. Quando o João Grilo virou o tio do mano que sempre sacaneia no jogo de tabua, a peça ganhou vida. A desigualdade deixou de ser tema e virou experiência. Levei uns quinze minutos pra perceber que o caminho era esse. O texto de Suassuna não precisava ser explicado. Precisa ser apropriado.

Pontas soltas que ninguém conta

Nem tudo na proposta de Suassuna funciona sem atrito. O principal problema é que a Arte Popular, tal como ele a concebeu, depende de um tipo de formação que nem todo professor tem. Você precisa conhecer tanto o repertório erudito quanto o popular pra fazer a ponte sem cair nem no academicismo seco nem no folclorismo barato. A maioria dos professores de escola pública não recebe formação nessa linha. O resultado é que o trabalho com Suassuna muitas vezes vira apenas leitura de texto, o que mata justamente o que há de mais vivo na obra dele. Outro ponto importante: Suassuna tinha uma visão de mundo que misturava catolicismo tradicional, cultura popular e um nacionalismo que hoje precisa ser lido com crítica. Ele não era progressista no sentido contemporâneo do termo. Alguns de seus textos têm visões sobre gênero e raça que não resistem bem ao escrutínio atual. Ignorar isso é ingenuidade. Trabalhar com a obra dele sem crítica também é.

Se o objetivo é entender desigualdade social no Brasil através de Suassuna, o caminho mais direto continua sendo a leitura dos autos com o ensaio A Dinâmica do Amor Messiânico. Mas leia junto com autores como Florestan Fernandes ou even com reflexões contemporâneas sobre racismo estrutural, senão a análise fica incompleta. Suassuna abre a porta. Você que entra e vê o que tem atrás dela.