A Lingua De Sinais É Universal - Língua De Sinais é Universal - RETOEDU
Língua De Sinais é Universal - RETOEDU

A ideia de que existe um único idioma de sinais global é um dos mitos mais persistentes nessa área

Eu caí nessa armadilha nos meus primeiros anos de contato com a comunidade surda. Conheci alguém que sabia Libras e ficou confuso na hora de se comunicar com uma pessoa surda argentina usando o mesmo alfabeto manual, mas com léxico e gramática completamente diferentes. O estranhamento durou uns minutos até entenderem que, basicamente, estavam falando línguas diferentes em silêncio.

a lingua de sinais é universal: o mito que precisa ser desconstruído

Não existe uma única língua de sinais. Cada país, e muitas vezes cada região dentro de um país, desenvolveu sua própria língua de sinais com gramática, sintaxe e vocabulário próprios. A Língua Brasileira de Sinais (Libras) não tem relação estrutural com a Língua Espanhola de Sinais, e muito menos com a American Sign Language (ASL) ou a British Sign Language (BSL). O que gera essa confusão é o alfabeto manual. A maioria das línguas de sinais do mundo adotou versões adaptadas do alfabeto digital francês, criados por Carlos de L'Épée no século XVIII. Mas o alfabeto é apenas uma ferramenta de empréstimo para nomes próprios e termos que ainda não tinham equivalência em sinais. Comparar a universalidade do alfabeto latino com a suposta universalidade das línguas de sinais é um erro comum.

Tenho um caso concreto que ilustra isso bem. Em 2019, eu estava em uma reunião onde um intérprete brasileiro traduzia do português para Libras e, ao lado, um parceiro boliviano usava a língua de sinais local. Eu tentei intermediar sinalizando em Libras, acreditando que haveria sobreposição suficiente. Não houve. A sintaxe da BOLSO (Bolivian Sign Language) segue estruturas completamente diferentes. A solução foi usar um tablet com um tradutor text-to-sign básico e pedir para cada um enviar mensagens escritas primeiro, para alinhar o conteúdo antes de retomar a comunicação visual. Isso gastou tempo precioso e deixou claro que, sem uma língua franca especializada, a comunicação direta entre falantes de línguas de sinais diferentes simplesmente não funciona da forma que a maioria das pessoas imagina.

Quais são as línguas de sinais mais relevantes no mundo

A ASL (American Sign Language) é uma delas e tem uma particularidade importante: ela não descendência da Língua de Sinais Americana, mas sim da Língua de Sinais Francesa (LSF). Thomas Gallaudet trouxe um educador surdo francês, Laurent Clerc, para os Estados Unidos no início do século XIX, e a LSF se misturou com línguas de sinais locais americanas. Isso significa que um sinalizador brasileiro que estude LSF vai encontrar parentesco visível com a ASL, mas muito pouco com a Libras. Já a BSL (British Sign Language) é completamente diferente da ASL, apesar dos dois países falarem inglês. A BSL pertence à família da línguas de sinais australiana e neozelandesa (Auslan/NSL), enquanto a ASL está na família francesa. A semelhança aparente entre sinais básicos é pura coincidência de conveniência visual. Testei isso em um curso de imersão: sinais como CASA, MÃE, ÁGUA têm formas completamente distintas entre BSL e ASL para os mesmos conceitos.

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Outro ponto que pouca gente leva em conta é que a Libras não é versão sinalizada do português. Ela tem estrutura gramatical própria, com classificação visual de verbos, uso de espaço para marcação pronominal e ordem tema-comentário. A correlação com o português se dá apenas no empréstimo de sinais para termos técnicos e na tradução de documentos. Tentar fazer "português sinalizado", alterando a gramática da Libras para seguir a do português falado, gera um produto que nativos surdos identificam imediatamente como errado e difícil de compreender.

O que existe de aproximação internacional

Há o Signed English e o Cued Speech, que são sistemas de representação da língua falada usando as mãos. Eles não são línguas de sinais naturais. Surgiram de movimentos ouvintes de educaçãoforal e têm aplicação limitada em contextos terapêuticos e educacionais específicos. O International Sign (IS) é mais próximo do que as pessoas imaginam quando falam em "língua de sinais universal". É um repertório de sinais convencionados usados em conferências internacionais, eventos esportivos e encontros da comunidade surda global. Funciona como uma pidgin: vocabulário compartilhado, gramática simplificada, alta dependência do contexto. Não é uma língua completa com capacidade de expressar todos os matizes que uma língua natural permite, e usuários experientes em IS reconhecem essas limitações abertamente.

Em minha prática, o IS funciona razoavelmente bem para situações pontuais como apresentações e workshops. Mas para conversas prolongadas, discussões técnicas ou humor — que dependem de nuances gramaticais e lexicais — ele falha. O melhor workaround que encontrei é levar um dicionário visual multimodal (como o VSLIB ou recursos similares) e estabelecer desde o início qual modalidade de comunicação será usada, pois não adianta partir do pressuposto de que "sinais são sinais" e pronto.

Erros comuns que todo mundo comete

O primeiro erro é achar que aprender um alfabeto manual resolve a questão. O alfabeto é útil para digitossignagem quando se desconhece o sinal de uma palavra, mas o uso excessivo dele transforma a comunicação em algo penoso e lento. Um sinalizador fluente usa o alfabeto apenas para nomes próprios, siglas e termos técnicos sem equivalente consolidado. O segundo erro é a suposição de que surdos de países diferentes se entendem porque compartilham a experiência da surdez. A surdez é uma condição, não uma língua. A identidade cultural surda é real e forte, mas a barreira linguística entre surdos de diferentes países é tão concreta quanto a barreira entre falantes de português e japonês.

O terceiro erro, mais técnico, é confundir a sinalização codificada com língua de sinais natural. Sistemas como o SignWriting ou a notação de von der Planitz são ferramentas de documentação e pesquisa, não línguas. Usá-los como substitutos da Libras ou de qualquer língua de sinais viva é um equívoco frequente em ambientes acadêmicos desatualizados. A realidade é que, embora a humanidade tenha vontade natural de comunicação, as línguas de sinais se ramificaram de forma orgânica a partir de comunidades surdas isoladas geographicamente. A ideia de que a lingua de sinais é universal soa bem emDiscursos motivacionais, mas na prática se mostra impraticável e, em muitos casos, ofensiva para quem vive cotidianamente a barreira linguística entre as diferentes línguas de sinais existentes.