A Historia Das Vogais - LOUCOS POR TECNOLOGIAS: Alfabetização. A História das Vogais (Ilustrada ...
LOUCOS POR TECNOLOGIAS: Alfabetização. A História das Vogais (Ilustrada ...

O que realmente mudou nos sons vocálicos ao longo dos séculos

Vogais não eram sempre as mesmas. O que chamamos de som da letra A hoje não é o mesmo som que existia no português do século XVI, e muito menos o que existia em latim vulgar. A transformação não foi gradual nem uniforme — aconteceu em ondas, em reações em cadeia, e em muitos casos de forma completamente aleatória dependendo do contexto fonológico de cada região. Ao estudar a historia das vogais, a primeira coisa que você precisa entender é que não existe uma linha reta. Vogais se abrem, se fecham, se nasalizam, desaparecem e ressurgem em formas que muitas vezes não têm relação óbvia com o som original. O que torna esse campo particularmente difícil é que não temos gravações. Só temos documentos escritos, rimas, transcrições de falantes estrangeiros e comparações com línguas irmãs. Isso significa que há uma margem de erro considerável em muitas das reconstruções que os lingüistas fazem.

a historia das vogais: como rastrear mudanças que ninguém registrou

O método prático que eu uso funciona assim. Você pega um par de palavras que existem no português moderno e rastreia a origem etimológica de cada uma. Depois compara com o italiano, o espanhol e o francês para ver onde os sons divergiram e quando essa divergência provavelmente ocorreu. É trabalho de detetive, não de memorização. Por exemplo, a palavra portuguesa "pé" vem do latim "pedem". O espanhol mantém "pie", o italiano diz "piede". O som /e/ fechado do português corresponde ao /ie/ brasileiro que surgiu de um processo de hiato que não ocorreu em todas as variedades do românico. Em algumas regiões do Brasil, esse /e/ já está tendendo a se abrir para //, e em outras variantes rurais do Sul ele se mantém mais fechado. Essa variação diacrônica é documentada em materiais do século XIX, onde autores se queixam exatamente dessa diferença de pronúncia entre regiões.

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Um problema que eu encontrei na prática foi tentar explicar para alunos a diferença entre as vogais átonas do português europeu e do brasileiro. No português de Lisboa, as vogais átonas /a/, /e/ e /o/ sofrem redução significativa — o /e/ aberto vira praticamente um schwa, o /o/ fechado também se fecha mais ainda. No português brasileiro, essa redução é muito menosdrástica. Quando eu simplesmente dava a regra, os alunos não conseguiam perceber a diferença ouvindo. A solução foi fazer com que ouvissem a mesma frase ditada por falantes de ambas as variantes, gravada em contexto natural, não em leitura isolada. Sozinho, o não fazia sentido. Em contexto prosódico real, a diferença ficou evidente em minutos. Outro ponto que poucos mencionam e que causa confusão constante é a nasalização. As vogais nasais do português não surgiram porque alguém decidiu adicionar um /m/ ou /n/ depois de uma vogal. Elas surgiram de um processo de nasalização assimétrica que ocorreu quando consoantes nasais finais sílabicas começaram a se dissolver, deixando para trás apenas a ressonância nasal no traço vocálico. O resultado é que hoje temos vogais que são simultaneamente orais e nasais em graus variados — e isso varia enormemente entre dialetos. Em São Paulo, a nasalização em "pão" é bastante marcada. No Rio de Janeiro, tende a ser mais suave. No nordeste interiorano, pode praticamente desaparecer em fala rápida.

Existe também a questão das vogais fechadas e abertas que vêm do latim e que se comportaram de maneiras imprevisíveis. O latim tinha um sistema de cinco vogais curtas e cinco longas. O português moderno não distingue quantidade vocálica de forma fonêmica da mesma maneira. O que aconteceu foi uma redistribuição complexa onde vogais longas tendiram a fechar e vogais curtas tendiram a abrir em determinadas posições. Mas não sempre. Depende da sílaba seguinte, do tipo de consoante que aparece, e se a sílaba era aberta ou fechada. O limite mais sério desse tipo de estudo é que muitas das mudanças vocálicas que ocorreram entre o século XIII e o XVI simplesmente não deixaram registro escrito confiável. Os escribas da época escreviam como achavam que deviaser escrito, não como falavam. Isso cria lacunas enormes na nossa compreensão. Quando você encontra uma forma arcaica num texto do século XVI, ela pode representar uma pronúncia real, uma pronúncia regional específica, ou simplesmente uma convenção ortográfica da época. Separ esses três casos exige criticidade textual, e mesmo assim a resposta às vezes é "não sabemos".

Uma alternativa útil quando os registros escritos falham é usar dados de línguas crioulas e variantes isoladas. O crioulo caboverdiano, por exemplo, preserva traços vocálicos que no português europeu já se perderam. Variantes do português faladas na Amazônia e no interior do Nordeste também mantêm características arcaicas que servem como testemunho indireto de estágios anteriores da língua. Nenhum desses dados é definitivo, mas combinados com os documentos escritos, eles preenchem partes do quadro que de outra forma ficariam em branco. O que eu posso afirmar com segurança é que o sistema vocálico do português atual é o resultado de várias camadas de mudança sobrepostas. A história fonológica não é linear. Vogais podem se dividir em dois sons diferentes dependendo de fatores que parecem irrelevantes à primeira vista — a presença de uma consoante palatal antes, o tom tônico, a velocidade de fala. E o que era variante regional hoje pode se tornar a norma padrão, como aconteceu com certas realizações vocálicas que começaram como marcas dialetais e hoje são ensinadas como "certas" em manuais de gramática.